terça-feira, 30 de dezembro de 2008
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Se foi, não é nem será
Janio de Freitas, Folha de S. Paulo
Assinado por Lula o decreto que altera as regras do sistema de telefonia, para permitir que a Oi/Telemar compre a Brasil Telecom e, exceto pequena área, tenha o monopólio da telefonia fixa no Brasil, por um instante preciso levar esta coluna de volta no tempo.
Véspera da posse de Lula em seu primeiro mandato, em 31 de dezembro de 2002, assim conclui o texto "Lula, uma pessoa", depois de narrar dois incidentes em que me fez acusação política injustificada e uma grosseria sem causa: "Não apesar disso, mas também por isso, como por tudo o que soube a seu respeito, dou testemunho de que Lula tem sido uma pessoa de caráter provado e comprovado. Que assim seja o presidente".
O uso de "tem sido", e não de "é", refletiu três razões. Já passei pelo suficiente para ter uma pequena idéia da natureza humana em sua relação ambiciosa com as diferentes formas de poder; Lula entrava no teste de sua vida, e nada me habilitava, nem me habilita, a avalizar o futuro opaco; e, ainda, protegia-me de situações decorrentes de ultrapassar, se o fizesse, os limites factuais do que entendo como jornalismo.
Por sorte, nesse caso a experiência colaborou. O voto final daquele texto não se cumpriu. Nem mesmo com precaução redobrada, superei o sentimento de que nunca poderia escrever, sobre o Lula desde seus primeiros atos de presidente, o que escrevera sobre o Lula anterior pelo que dele soubera. O sentimento passou a convicção.
O favorecimento à Oi/Telemar e à Brasil Telecom é uma transação mais inescrupulosa do que todas de que possa lembrar. É fácil admitir que as empresas e seus controladores estejam adequados aos modos, meios e fins legítimos nos domínios do grande capital, onde são expoentes. Nem mesmo a participação decisiva de diferentes partes do governo poderia surpreender. Mas a transação não dependeu disso.
Quando cheguei ao jornalismo, sem a mais remota idéia de que ficaria, certo dia alguém me contou uma história que valeu para sempre desde ali. Era relativa à alteração que "o ínclito presidente Dutra", exemplo definitivo de moralidade e fidelidade ao "livrinho" da Constituição, fez na legislação de heranças. Ampliou o alcance de parentes não-imediatos à herança, na falta de parentes próximos. Tudo fora urdido na diretoria do "Diário Carioca", informada de que no interior de São Paulo uma bela fortuna vagava à falta de herdeiros habilitados.
Uma trama de cartórios e certidões gerou um parentesco enviesado, enquanto era obtida a concordância da Presidência para a alteração da lei. A fortuna encontrou um destino: foi rateada na fraternidade entre dirigentes do jornal e integrantes do governo. Quando a ouvi, pude comprovar que alguns traços da história já figuravam em certo livro de direito como o "caso Cantinho", do nome do morto sem herdeiros. Mas tudo foi feito e mantido na surdina.
Na armação do negócio Oi/Telemar-Brasil Telecom-governo Lula, até o mínimo escrúpulo das urdiduras encobertas ou disfarçadas ficou como coisa do passado. Há mais de meio ano, está escancarada a participação do próprio Lula, com o assegurado decreto de alteração das regras impeditivas do negócio. E, depois, com a necessária nomeação, para neutralizar duas discordâncias na Agência Nacional de Telecomunicações, de dois favoráveis ao negócio. Um deles, dirigente de uma das empresas da transação. Sem esquecer os R$ 8 a 10 bilhões com que, por ordem de Lula também divulgada à vontade, o BNDES e o Banco do Brasil vão ajudar a compra da Brasil Telecom pela Oi/Telemar.
Co-artífices da operação, o embaixador Ronaldo Sardenberg, presidente da Anatel, e Hélio Costa, ministro das Comunicações, que foi contra o negócio começado às suas costas e, por obra de algum dos milagres comuns nessas transações, de repente tornou-se entusiasta na linha de frente.
Engulo, mas não posso digerir, o voto inútil que fiz a Lula.
Folha de S. Paulo, 23 de novembro de 2008
Assinado por Lula o decreto que altera as regras do sistema de telefonia, para permitir que a Oi/Telemar compre a Brasil Telecom e, exceto pequena área, tenha o monopólio da telefonia fixa no Brasil, por um instante preciso levar esta coluna de volta no tempo.
Véspera da posse de Lula em seu primeiro mandato, em 31 de dezembro de 2002, assim conclui o texto "Lula, uma pessoa", depois de narrar dois incidentes em que me fez acusação política injustificada e uma grosseria sem causa: "Não apesar disso, mas também por isso, como por tudo o que soube a seu respeito, dou testemunho de que Lula tem sido uma pessoa de caráter provado e comprovado. Que assim seja o presidente".
O uso de "tem sido", e não de "é", refletiu três razões. Já passei pelo suficiente para ter uma pequena idéia da natureza humana em sua relação ambiciosa com as diferentes formas de poder; Lula entrava no teste de sua vida, e nada me habilitava, nem me habilita, a avalizar o futuro opaco; e, ainda, protegia-me de situações decorrentes de ultrapassar, se o fizesse, os limites factuais do que entendo como jornalismo.
Por sorte, nesse caso a experiência colaborou. O voto final daquele texto não se cumpriu. Nem mesmo com precaução redobrada, superei o sentimento de que nunca poderia escrever, sobre o Lula desde seus primeiros atos de presidente, o que escrevera sobre o Lula anterior pelo que dele soubera. O sentimento passou a convicção.
O favorecimento à Oi/Telemar e à Brasil Telecom é uma transação mais inescrupulosa do que todas de que possa lembrar. É fácil admitir que as empresas e seus controladores estejam adequados aos modos, meios e fins legítimos nos domínios do grande capital, onde são expoentes. Nem mesmo a participação decisiva de diferentes partes do governo poderia surpreender. Mas a transação não dependeu disso.
Quando cheguei ao jornalismo, sem a mais remota idéia de que ficaria, certo dia alguém me contou uma história que valeu para sempre desde ali. Era relativa à alteração que "o ínclito presidente Dutra", exemplo definitivo de moralidade e fidelidade ao "livrinho" da Constituição, fez na legislação de heranças. Ampliou o alcance de parentes não-imediatos à herança, na falta de parentes próximos. Tudo fora urdido na diretoria do "Diário Carioca", informada de que no interior de São Paulo uma bela fortuna vagava à falta de herdeiros habilitados.
Uma trama de cartórios e certidões gerou um parentesco enviesado, enquanto era obtida a concordância da Presidência para a alteração da lei. A fortuna encontrou um destino: foi rateada na fraternidade entre dirigentes do jornal e integrantes do governo. Quando a ouvi, pude comprovar que alguns traços da história já figuravam em certo livro de direito como o "caso Cantinho", do nome do morto sem herdeiros. Mas tudo foi feito e mantido na surdina.
Na armação do negócio Oi/Telemar-Brasil Telecom-governo Lula, até o mínimo escrúpulo das urdiduras encobertas ou disfarçadas ficou como coisa do passado. Há mais de meio ano, está escancarada a participação do próprio Lula, com o assegurado decreto de alteração das regras impeditivas do negócio. E, depois, com a necessária nomeação, para neutralizar duas discordâncias na Agência Nacional de Telecomunicações, de dois favoráveis ao negócio. Um deles, dirigente de uma das empresas da transação. Sem esquecer os R$ 8 a 10 bilhões com que, por ordem de Lula também divulgada à vontade, o BNDES e o Banco do Brasil vão ajudar a compra da Brasil Telecom pela Oi/Telemar.
Co-artífices da operação, o embaixador Ronaldo Sardenberg, presidente da Anatel, e Hélio Costa, ministro das Comunicações, que foi contra o negócio começado às suas costas e, por obra de algum dos milagres comuns nessas transações, de repente tornou-se entusiasta na linha de frente.
Engulo, mas não posso digerir, o voto inútil que fiz a Lula.
Folha de S. Paulo, 23 de novembro de 2008
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Carta de Paulo de Tarso Venceslau a Lula denunciando corrupção no PT
São Paulo, 23 de março de 1995
AO PRESIDENTE NACIONAL DO PARTIDO DOS TRABALHADORES LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA
Companheiro Lula,
AO PRESIDENTE NACIONAL DO PARTIDO DOS TRABALHADORES LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA
Companheiro Lula,
Há muitos meses que eu pretendia falar ou ao menos me comunicar com você, pessoalmente, para que não pairasse qualquer mal-entendido. Só não o fiz antes por causa da campanha eleitoral. Creio que agora que você reassumiu a presidência do PT poderemos esclarecer o que ocorreu, em 1993, na administração petista de São José dos Campos. Esclarecer com o companheiro Lula não mais como candidato, mas como liderança máxima do PT, um partido que veio para mudar a História desse país.
Serei objetivo para que, se houver interesse de sua parte e da direção do PT, possamos aprofundar o assunto no momento e no local mais convenientes.
Tive a (in)felicidade de, como secretário da Fazenda de São José dos Campos, descobrir uma série de irregularidades do governo anterior, que envolviam políticos comprometidos com o PTB, PMDB e com o famigerado PRN. Uma dessas irregularidades envolvia uma empresa bastante conhecida das administrações petistas: a CPEM - Consultoria Para Empresas e Municípios.
Essa empresa era representada por pessoas ligadas à direção do PT, como os irmãos Roberto e Dirceu Teixeira. Outras vezes, era apresentada até pelos prefeitos em exercício, como no caso de Campinas, em 1990, em que o prefeito era o então petista Jacó Bittar, como uma empresa de gente amiga e que poderia ajudar nosso Partido. Essa história é longa e nós, eu e você, tivemos oportunidade de conversar sobre o assunto, na primeira sede do governo paralelo. Aliás, foi o próprio Jacó Bittar quem me trouxe, pessoalmente, como militante petista e secretário das Finanças de Campinas para essa conversa com você.
Soube, posteriormente, que o mesmo se sucedera em outras administrações petistas, como no caso de Santo André, Diadema, Santos e Piracicaba, pelo menos. Eu me lembro muito bem que foi difícil convencê-los, no caso de Campinas você e o Jacó, que não era conveniente contratar uma empresa, sem licitação, para desenvolver um trabalho que as equipes internas das prefeituras tinham condições para executar.
Em 1993, fui convidado e assumi o comando da Secretaria da Fazenda, indicado, segundo o pessoal de São José dos Campos, pelos então deputados federais Aloízio Mercadante e José Dirceu. Com certeza, nunca solicitei nada a esses dois companheiros. Minhas ações sempre foram norteadas por princípios adquiridos ao longo de minha vida e dos quais não abro mão. Afinal, são valores que custaram muita luta, prisão, tortura, morte e exílio para centenas de companheiros e amigos.
Logo no início do governo petista em São José dos Campos, verifiquei que a CPEM era uma das maiores credoras da Prefeitura: já havia recebido mais de US$ 10 milhões e teria, ainda, um crédito superior a US$ 5 milhões, cujo pagamento jamais autorizei, apesar das pressões recebidas. Em pouco tempo, levantei as irregularidades que marcavam o contrato com essa empresa, favorecendo o que havia de mais podre no cenário político do Vale do Paraíba. Fiz questão de alertar a direção do PT e, em particular, Paulo Okamoto. Aproveitei uma reunião de secretários das Finanças, em Ribeirão Preto, no dia 23 de abril de 1993, para alertar os demais companheiros sobre o risco que poderiam correr caso contratassem aquela empresa. Acabei sendo admoestado pelo próprio Paulo Okamoto por ter falado demais em uma reunião que havia pessoas de outros partidos. Nesse dia, entreguei, para o Partido, o início de um dossiê sobre a CPEM contendo o parecer da comissão de sindicância que instalara para apurar as irregularidades daquele contrato.
A história é longa, como bem sabe, até por força de nossos encontros e conversas. Cheguei a sofrer ameaças como o cerco promovido por três homens, que estavam em um Gol branco, chapa DQ 4609, posteriormente constatou-se que se tratava de uma chapa fria, contra o carro oficial da Prefeitura, dirigido por um motorista de carreira.
Apesar de tudo, entre outros sucessos, durante os nove meses que permaneci no comando das finanças públicas de São José dos Campos, consegui, a custo zero e sem aumento de impostos, os melhores financeiros da história daquele município. O orçamento histórico de cerca de US$ 100 milhões aproximou-se de US$ 250 milhões em 1994. Consegui provar, inclusive na Justiça, que a CPEM era inidônea - foi condenada a devolver US$ 10,5 milhões para os cofres municipais.
O prêmio foi minha exoneração na noite de 13 de setembro, coincidentemente no mesmo dia em que encaminhei, pela manhã, formalmente, à Prefeitura e ao secretário de Assuntos Jurídicos, o resultado da auditoria externa que havia contratado e, ao mesmo tempo, solicitava uma série de medidas contra a referida empresa, junto ao Tribunal de Contas do Estado, Secretaria da Fazenda e à própria Justiça.
Pego de surpresa, cobrei da prefeita o motivo do meu afastamento, uma vez que eu era titular da secretaria que apresentava os melhores resultados práticos. Entre soluços constrangedores, a Prefeita me informou que Paulo Okamoto, representando a direção nacional, e Paulo Frateschi, pela direção estadual, "tinham pedido minha cabeça".
Esses dois tristes personagens sempre negaram o que a Prefeita me afirmara.
Posteriormente, os companheiros Aloízio Mercadante e Gilberto de Carvalho, segundo eles, entraram com uma representação junto à Executiva Nacional. Passado mais de um ano e sem qualquer resposta de quem quer que seja, não vejo outra alternativa a não ser essa: enviar uma carta, devidamente registrada no Cartório de Títulos e Documentos, solicitando do Partido dos Trabalhadores, oficialmente, informações sobre a dita representação e, ao mesmo tempo, que a Executiva Nacional se manifeste a respeito. Temos que impedir que o nosso querido Partido perca seu patrimônio mais importante: a credibilidade crescente junto à população e a confiança de que não seremos condescendentes com dilapidadores de recursos públicos. O PT não pode ser colocado na vala comum dos partidos tradicionais e políticos demagogos descritos pela máxima "faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço".
Entenda, companheiro Lula, essa minha carta como um esforço para se evitar que o silêncio, diante de tudo o que aconteceu, possa parecer como uma tentativa de acobertamento das atividades de uma empresa como a CPEM. Atividades que envolveram recursos públicos da ordem de milhões de dólares, financiamento de campanhas eleitorais de partidos e candidatos de direita, contratos condenados pela Justiça, e, no meio disso tudo, militantes do Partido dos Trabalhadores. Terminar em pizza seria um fato muito grave para o nosso Partido e para milhões de brasileiros que depositam sua confiança na sua história construída ao longo de muito sofrimento e luta.
Deixo aqui, pois, formalizados esses dois pedidos e me coloco à disposição do Partido para apresentar todos os documentos que estão em meu poder e prestar todos os depoimentos que se fizerem necessários para se apurar, até as últimas conseqüências, as responsabilidades sobre fatos que hoje desabonam e desacreditam nosso Partido em todo o meu querido Vale do Paraíba.
Informo, também, que estarei enviando cópias dessa carta para as nossas principais lideranças e instâncias partidárias porque acredito que "a verdade é revolucionária" e que a democracia e a transparência fazem parte do ideário petista.
SAUDAÇÕES PETISTAS
PAULO DE TARSO VENCESLAU
Serei objetivo para que, se houver interesse de sua parte e da direção do PT, possamos aprofundar o assunto no momento e no local mais convenientes.
Tive a (in)felicidade de, como secretário da Fazenda de São José dos Campos, descobrir uma série de irregularidades do governo anterior, que envolviam políticos comprometidos com o PTB, PMDB e com o famigerado PRN. Uma dessas irregularidades envolvia uma empresa bastante conhecida das administrações petistas: a CPEM - Consultoria Para Empresas e Municípios.
Essa empresa era representada por pessoas ligadas à direção do PT, como os irmãos Roberto e Dirceu Teixeira. Outras vezes, era apresentada até pelos prefeitos em exercício, como no caso de Campinas, em 1990, em que o prefeito era o então petista Jacó Bittar, como uma empresa de gente amiga e que poderia ajudar nosso Partido. Essa história é longa e nós, eu e você, tivemos oportunidade de conversar sobre o assunto, na primeira sede do governo paralelo. Aliás, foi o próprio Jacó Bittar quem me trouxe, pessoalmente, como militante petista e secretário das Finanças de Campinas para essa conversa com você.
Soube, posteriormente, que o mesmo se sucedera em outras administrações petistas, como no caso de Santo André, Diadema, Santos e Piracicaba, pelo menos. Eu me lembro muito bem que foi difícil convencê-los, no caso de Campinas você e o Jacó, que não era conveniente contratar uma empresa, sem licitação, para desenvolver um trabalho que as equipes internas das prefeituras tinham condições para executar.
Em 1993, fui convidado e assumi o comando da Secretaria da Fazenda, indicado, segundo o pessoal de São José dos Campos, pelos então deputados federais Aloízio Mercadante e José Dirceu. Com certeza, nunca solicitei nada a esses dois companheiros. Minhas ações sempre foram norteadas por princípios adquiridos ao longo de minha vida e dos quais não abro mão. Afinal, são valores que custaram muita luta, prisão, tortura, morte e exílio para centenas de companheiros e amigos.
Logo no início do governo petista em São José dos Campos, verifiquei que a CPEM era uma das maiores credoras da Prefeitura: já havia recebido mais de US$ 10 milhões e teria, ainda, um crédito superior a US$ 5 milhões, cujo pagamento jamais autorizei, apesar das pressões recebidas. Em pouco tempo, levantei as irregularidades que marcavam o contrato com essa empresa, favorecendo o que havia de mais podre no cenário político do Vale do Paraíba. Fiz questão de alertar a direção do PT e, em particular, Paulo Okamoto. Aproveitei uma reunião de secretários das Finanças, em Ribeirão Preto, no dia 23 de abril de 1993, para alertar os demais companheiros sobre o risco que poderiam correr caso contratassem aquela empresa. Acabei sendo admoestado pelo próprio Paulo Okamoto por ter falado demais em uma reunião que havia pessoas de outros partidos. Nesse dia, entreguei, para o Partido, o início de um dossiê sobre a CPEM contendo o parecer da comissão de sindicância que instalara para apurar as irregularidades daquele contrato.
A história é longa, como bem sabe, até por força de nossos encontros e conversas. Cheguei a sofrer ameaças como o cerco promovido por três homens, que estavam em um Gol branco, chapa DQ 4609, posteriormente constatou-se que se tratava de uma chapa fria, contra o carro oficial da Prefeitura, dirigido por um motorista de carreira.
Apesar de tudo, entre outros sucessos, durante os nove meses que permaneci no comando das finanças públicas de São José dos Campos, consegui, a custo zero e sem aumento de impostos, os melhores financeiros da história daquele município. O orçamento histórico de cerca de US$ 100 milhões aproximou-se de US$ 250 milhões em 1994. Consegui provar, inclusive na Justiça, que a CPEM era inidônea - foi condenada a devolver US$ 10,5 milhões para os cofres municipais.
O prêmio foi minha exoneração na noite de 13 de setembro, coincidentemente no mesmo dia em que encaminhei, pela manhã, formalmente, à Prefeitura e ao secretário de Assuntos Jurídicos, o resultado da auditoria externa que havia contratado e, ao mesmo tempo, solicitava uma série de medidas contra a referida empresa, junto ao Tribunal de Contas do Estado, Secretaria da Fazenda e à própria Justiça.
Pego de surpresa, cobrei da prefeita o motivo do meu afastamento, uma vez que eu era titular da secretaria que apresentava os melhores resultados práticos. Entre soluços constrangedores, a Prefeita me informou que Paulo Okamoto, representando a direção nacional, e Paulo Frateschi, pela direção estadual, "tinham pedido minha cabeça".
Esses dois tristes personagens sempre negaram o que a Prefeita me afirmara.
Posteriormente, os companheiros Aloízio Mercadante e Gilberto de Carvalho, segundo eles, entraram com uma representação junto à Executiva Nacional. Passado mais de um ano e sem qualquer resposta de quem quer que seja, não vejo outra alternativa a não ser essa: enviar uma carta, devidamente registrada no Cartório de Títulos e Documentos, solicitando do Partido dos Trabalhadores, oficialmente, informações sobre a dita representação e, ao mesmo tempo, que a Executiva Nacional se manifeste a respeito. Temos que impedir que o nosso querido Partido perca seu patrimônio mais importante: a credibilidade crescente junto à população e a confiança de que não seremos condescendentes com dilapidadores de recursos públicos. O PT não pode ser colocado na vala comum dos partidos tradicionais e políticos demagogos descritos pela máxima "faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço".
Entenda, companheiro Lula, essa minha carta como um esforço para se evitar que o silêncio, diante de tudo o que aconteceu, possa parecer como uma tentativa de acobertamento das atividades de uma empresa como a CPEM. Atividades que envolveram recursos públicos da ordem de milhões de dólares, financiamento de campanhas eleitorais de partidos e candidatos de direita, contratos condenados pela Justiça, e, no meio disso tudo, militantes do Partido dos Trabalhadores. Terminar em pizza seria um fato muito grave para o nosso Partido e para milhões de brasileiros que depositam sua confiança na sua história construída ao longo de muito sofrimento e luta.
Deixo aqui, pois, formalizados esses dois pedidos e me coloco à disposição do Partido para apresentar todos os documentos que estão em meu poder e prestar todos os depoimentos que se fizerem necessários para se apurar, até as últimas conseqüências, as responsabilidades sobre fatos que hoje desabonam e desacreditam nosso Partido em todo o meu querido Vale do Paraíba.
Informo, também, que estarei enviando cópias dessa carta para as nossas principais lideranças e instâncias partidárias porque acredito que "a verdade é revolucionária" e que a democracia e a transparência fazem parte do ideário petista.
SAUDAÇÕES PETISTAS
PAULO DE TARSO VENCESLAU
RG 3.563.157 SSP/SP
Militante e ex-presidente do DZ Pinheiros
Ex-membro do Diretório Municipal de São Paulo
Membro do Conselho de Redação de Teoria e Debate
...
São Paulo, 9 de abril de 1997
(Adendo à carta no dia 09/04/97)
Em comemoração aos dois anos de aniversário de absoluto silêncio e conivência com as falcatruas de nossos dirigentes, estou remetendo, de novo, a carta que registrei em Cartório em março de 1995.
Seria redundante qualquer comentário.
Um abraço, Paulo de Tarso Venceslau
terça-feira, 21 de outubro de 2008
O e-mail de Fabio Fernandes, presidente da F/Nazca
"Pessoal,
"Achei que devia escrever a vocês para falar sobre o Maximídia e o debate/embate que eu travei com o Nizan.
"Acho que não é novidade para os mais próximos e os nem tão próximos que tenho diferenças profundas, quase religiosas, na visão sobre o que é e o que deve ser o negócio, o objetivo do trabalho, a missão, os processos, a forma e o conteúdo do prodtuto final de uma agência de propaganda, em relação ao dito personagem - pra mim, uma caricatura de ser humano, dublê de político populista e novo-rico deslumbrado, comediante de frases de efeito repetidas à exaustão, arremedo de empresário anti-ético e criativo anti-estético.
"Nunca escondi - nem dele - que o acho vil, pernicioso à nossa indústria, predador, oportunista, aproveitador, manipulador. Nunca deixei de observar e comentar que todo o tempo em que ele esteve criador foi um tempo que ele utilizou apenas para forjar um personagem que, com tino e capacidade de observação, o levaria a ter seu próprio negócio, onde ele reproduziria não aquilo que ele almejou como empregado mas, ao contrário, os piores modelos, os piores ambientes internos, piores lugares comuns,
entre todas as agências em que ele trabalhou. Desde que isso, convenientemente, implicasse em fazê-lo mais forte, mais rico, mais poderoso.
"Nizan é um caso típico de uma pessoa que quanto mais tem mais quer. E que, quanto mais quer, menos mede esforços e as consequências nefastas dos atos que ele pratica, para ter mais. Ele é o exemplo pronto e acabado da insustentabilidade. Se fosse presidente dos EUA não seria em nada diferente de Bush - só o discurso seria mais engraçado. Mas invadiria o Iraque, deportaria estrangeiros, perseguiria minorias, poluiria a atmosfera, cagaria para o mundo. O que interessa para ele é ele. E por ele, acha ele, que pode, ele, tudo.
"Mas a minha questão mais vital em relação a ele, é o fato de que - queira eu ou não - ele se transformou em uma celebridade da propaganda brasileira. Os incautos, os bobos da corte, os novatos, os leigos, os incultos, clientes inclusive, publicitários inclusive,
imprensa, principalmente, inclusive, o acham o máximo. E eu, que convivo muito bem com as minhas invejas, meus desencantos, meus
fracassos, não teria nada a objetar se ele o fosse de fato.
"Portanto não é este, em nenhuma hipótese, o meu problema com ele.
O meu imenso, colossal, infinito problema com ele é que, amparado por essa "populariadade", "unanimidade", "superioridade" ele diz o que quer, do jeito e na hora que quer, destruindo o que quer, com voz e pompas de "representante da categoria". Agências que produzem trash for cash (ou lixo por dinheiro, em bom português) existiram e existirão sempre. Na realidade,
em boa parte elas até nos ajudam a sermos melhor percebidos como inovadores, originais, cuidadosos, diferentes.
"O Brasil, entretanto, é o único país do mundo onde a publicidade tem no discurso do seu maior expoente que "o que é bom é feito para ser copiado", "propaganda criativa é bobagem", "eficiência é o contrário de originalidade", ou as pérolas que ouvimos no próprio Maximídia: "momento de crise não é momento de inovar". Ou seja: na falta de capacidade ou de vontade de fazer boa propaganda, propaganda de qualidade (o que, obviamente, na nossa opinião passa obrigatoriamente por inovação, criatividade, excelência na execução e excitação do pessoal interno de uma agência de propaganda), o que ele faz - oficialmente - é nos colocar na posição de meninos traquinas,
revoltadinhos de plantão, criativos irresponsáveis que querem brincar com o dinheiro dos clientes, enquanto ele finge que é Jack Welch, Warren Buffet ou Armínio Fraga.
"Nizan não sabe mais quem ele é. Ele é publicitário mas quer fingir que é analista econômico. Foi criativo mas gostaria mesmo era de ser dono da Ambev. Tem um business microscópico mas arrota ares de colega de turma de um Jorge Gerdau.
"Mas eu sei quem é Nizan. É um demagogo. Ele sabe bem que o discurso do tradicionalismo, do conservadorismo, da mediocridade, da pasteurização agrada em cheio a uma imensa gama de bundões de plantão que preferem demitir do que investir. Preferem temer do que empreender, preferem dividir os prejuízos, já que nos lucros ele posa com a esposa em sandálias de 3.200 reais, em seu apartamento em Paris. Preferem disseminar o caos, porque a alegria dos bons momentos ele rega com champagne em festas particulares com celebridades estéreis e etéreas de última hora.
"Na publicidade, que afinal é o meu negócio, embora sempre que eu fale nisso ele ache que o assunto está infantil demais (lembrem-se, ele é um business man) ele sabe também que há bundões prontos a gastar mais para contratar uma meia dúzia de artistas famosos, cantando um jingle com uma logomarca formada por funcionários da empresa, do que se "arriscarem" a criar um posicionamento de verdade, uma linguagem proprietária, um estilo único e próprio. Na visão desse chupa-sangue de plantão, ele está certo. Tanto que acerta duas vezes com uma mesma tacada: acalenta os desejos mais primitivos de um ou outro cliente cagão e ainda fatura muito mais em cima do trouxa que tem que enfiar todo o dinheiro do mundo para ser ouvido/visto/lembrado com uma bobajada cheia de clichês e formulinhas baratas, que definitivamente não sobreviveriam a um plano de mídia comprado com poucos recursos.
"De quebra, ele ainda usa todo o seu arsenal de repetidores e baba-ovos da imprensa e arredores para confirmar que um monte de estrume na verdade é um pote de ouro. E o bobo alegre que aprovou e pagou pela campanha acha que fez a coisa certa de novo. Reis nus. Que se sentem vestidos com o melhor da tecnologia e design da indústria têxtil. E eu, daqui do alto da minha inocência, só vejo que eles têm pênis pequenos.
"Não é à toa que ele está tão preocupado com a crise de liquidez que todos vamos enfrentar nos próximos tempos. Ele sabe que o dinheiro, quanto mais valioso e raro fica, melhor tem que ser aplicado. E, com menos dinheiro, é a inteligência o que a propaganda vai voltar a exigir. Quanto mais economizarmos, compensados por uma mensagem forte e memorável, mais eficientes seremos para os nossos clientes. Ninguém lembra de um amigo medíocre que fala pouco, alguns até se recordam de um amigo chato que fala muito, mas todos sentem saudades do amigo genial que falava coisas legais. Ou seja: o modelo de negócio dele desmoronou. A festa acabou para quem não passava de vendedor de um montão de espaço na mídia e começou para quem tem o Que e o Como dizer nesse espaço, que será inevitavelmente menor.
"E isso ele não sabe fazer.
"Isso foi o que suscitou o nosso duelo na última quinta-feira. Ao contrário do que ele ainda tentou fazer alguns crerem, eu não estava discutindo sobre o ofício da criação ou sobre "leões em Cannes". Ao contrário do que ele fingiu que estava acontecendo, a nossa discussão não era sobre a criatividadezinha e os sonhos dos seus pequenos criadores. Nós discutíamos sim era sobre uma questão que, apesar de tudo, ele mesmo ainda tem senso crítico suficiente para entender, mesmo que intimamente isso seja altamente doloroso, já que foi o que um dia ele mesmo já tanto defendera.
"Nós estávamos discutindo caráter. Porque, ao contrário dos que não oferecem o melhor para os seus clientes por falta de recursos, talento, ferramental, essa mediocrização a que ele está submetendo as agências controladas por ele é um esforço premeditado para esvaziar toda e qualquer possibilidade de que o discurso dos que fazem melhor, com mais interesse, mais cuidado, mais compromisso e mais responsabilidade se reestabeleça.
"O trabalho que as agências do Nizan Guanaes faz, a maneira como ele trata seus funcionários, as propostas comerciais indecorosas que elas oferecem aos seus clientes não seriam um problema tão grande se não fosse o fato, como eu já disse, de que o discurso que o embasa é avassaladoramente mais potente que o que nós e outros poucos como nós, conseguimos rebater daqui. Quando alguém vende a alma ao demônio isso deixa de ser um problema exclusivamente dele, quando esse alguém vai à Caras, à Exame e à Veja para convencer a todos de que vender a alma é o certo.
"E o que aconteceu de bom no final de tudo isso? Na minha opinião, várias coisas. A primeira é que muitos agora viram que o que ele diz não é uma verdade. É uma opinião viciada, interesseira e oportunista. E não é a opinião do resto do mercado. Segundo, é que outros que pensam como nós entenderam que ele pode e deve ser confrontado. Terceiro, é que se definiram claramente os discursos e as práticas no dia-a-dia. Agora, já pode-se começar a entender que mediocridade e mesmice são apenas uma opção e, tanto são uma opção, que têm um lugar (ou um grupo) certo onde podem ser solicitadas.
"Mas existem sim outras opções e nós estamos na ponta entre as agências de propaganda latu-sensu que oferecem essa opção. Quarto, é que sempre é bom ver os que se fazem de bonzinhos e corretos finalmente mostrando as suas garras e suas verdadeiras motivações. Naquele mesmo dia, à tarde, o Nizan me telefonou aqui na agência. Como eu não o atendi, deixou, literalmente, o seguinte recado com a Sueli: "Diga ao Fábio que ele é viado, frouxo, que ele me bate em público mas se ele for homem que telefone para mim!"
"Disse também, mais tarde, em um jantar com pessoas que me conhecem que "Eu só não bati em Fábio Fernandes porque ele estava maquiado - e eu não bato em homem maquiado". Para os que não entenderam o enigma (como eu, que fui perguntar a uma pessoa que o conhece) ele acha que eu... passo lápis nos olhos. Sim, acreditem. Alguém, inclusive, já o ouviu relatando que alguém lhe contou que uma certa vez, sob a chuva, o lápis dos meus olhos borrou e eu corri para colocar os óculos escuros... :-))))) Inacreditável, mas é a mais pura verdade. Foi a esse ponto que esse sujeito chegou.
"Por isso mesmo eu resolvi escrever a todos vocês sobre isso. Porque o que eu tenho a dizer sobre ele é bem pior do que seria se ele apenas usasse lápis para ressaltar os seus lindos olhos. O que eu tenho a dizer sobre ele é claro, verdadeiro, profundo e cabal. Fico feliz de não me maquiar, mas não teria problema nenhum em admiti-lo se, ainda que absurdo, isso fosse verdade. O duro para ele deve ser ouvir o que eu penso - e que a cada dia mais gente vem me dizer que foi bom eu dizê-lo porque é o que quase todo mundo pensa - e, mesmo sendo a mais aguda verdade, não poder admiti-lo.
Porque é revelador, comprometedor e devastador.
"O rei está nu. E eu sei que ele não é de nada."
Fabio Fernandes
F/Nazca Saatchi & Saatchi
Agency of The Year 1999, 2001, 2003, 2004, 2005, 2006, 2007.
"Achei que devia escrever a vocês para falar sobre o Maximídia e o debate/embate que eu travei com o Nizan.
"Acho que não é novidade para os mais próximos e os nem tão próximos que tenho diferenças profundas, quase religiosas, na visão sobre o que é e o que deve ser o negócio, o objetivo do trabalho, a missão, os processos, a forma e o conteúdo do prodtuto final de uma agência de propaganda, em relação ao dito personagem - pra mim, uma caricatura de ser humano, dublê de político populista e novo-rico deslumbrado, comediante de frases de efeito repetidas à exaustão, arremedo de empresário anti-ético e criativo anti-estético.
"Nunca escondi - nem dele - que o acho vil, pernicioso à nossa indústria, predador, oportunista, aproveitador, manipulador. Nunca deixei de observar e comentar que todo o tempo em que ele esteve criador foi um tempo que ele utilizou apenas para forjar um personagem que, com tino e capacidade de observação, o levaria a ter seu próprio negócio, onde ele reproduziria não aquilo que ele almejou como empregado mas, ao contrário, os piores modelos, os piores ambientes internos, piores lugares comuns,
entre todas as agências em que ele trabalhou. Desde que isso, convenientemente, implicasse em fazê-lo mais forte, mais rico, mais poderoso.
"Nizan é um caso típico de uma pessoa que quanto mais tem mais quer. E que, quanto mais quer, menos mede esforços e as consequências nefastas dos atos que ele pratica, para ter mais. Ele é o exemplo pronto e acabado da insustentabilidade. Se fosse presidente dos EUA não seria em nada diferente de Bush - só o discurso seria mais engraçado. Mas invadiria o Iraque, deportaria estrangeiros, perseguiria minorias, poluiria a atmosfera, cagaria para o mundo. O que interessa para ele é ele. E por ele, acha ele, que pode, ele, tudo.
"Mas a minha questão mais vital em relação a ele, é o fato de que - queira eu ou não - ele se transformou em uma celebridade da propaganda brasileira. Os incautos, os bobos da corte, os novatos, os leigos, os incultos, clientes inclusive, publicitários inclusive,
imprensa, principalmente, inclusive, o acham o máximo. E eu, que convivo muito bem com as minhas invejas, meus desencantos, meus
fracassos, não teria nada a objetar se ele o fosse de fato.
"Portanto não é este, em nenhuma hipótese, o meu problema com ele.
O meu imenso, colossal, infinito problema com ele é que, amparado por essa "populariadade", "unanimidade", "superioridade" ele diz o que quer, do jeito e na hora que quer, destruindo o que quer, com voz e pompas de "representante da categoria". Agências que produzem trash for cash (ou lixo por dinheiro, em bom português) existiram e existirão sempre. Na realidade,
em boa parte elas até nos ajudam a sermos melhor percebidos como inovadores, originais, cuidadosos, diferentes.
"O Brasil, entretanto, é o único país do mundo onde a publicidade tem no discurso do seu maior expoente que "o que é bom é feito para ser copiado", "propaganda criativa é bobagem", "eficiência é o contrário de originalidade", ou as pérolas que ouvimos no próprio Maximídia: "momento de crise não é momento de inovar". Ou seja: na falta de capacidade ou de vontade de fazer boa propaganda, propaganda de qualidade (o que, obviamente, na nossa opinião passa obrigatoriamente por inovação, criatividade, excelência na execução e excitação do pessoal interno de uma agência de propaganda), o que ele faz - oficialmente - é nos colocar na posição de meninos traquinas,
revoltadinhos de plantão, criativos irresponsáveis que querem brincar com o dinheiro dos clientes, enquanto ele finge que é Jack Welch, Warren Buffet ou Armínio Fraga.
"Nizan não sabe mais quem ele é. Ele é publicitário mas quer fingir que é analista econômico. Foi criativo mas gostaria mesmo era de ser dono da Ambev. Tem um business microscópico mas arrota ares de colega de turma de um Jorge Gerdau.
"Mas eu sei quem é Nizan. É um demagogo. Ele sabe bem que o discurso do tradicionalismo, do conservadorismo, da mediocridade, da pasteurização agrada em cheio a uma imensa gama de bundões de plantão que preferem demitir do que investir. Preferem temer do que empreender, preferem dividir os prejuízos, já que nos lucros ele posa com a esposa em sandálias de 3.200 reais, em seu apartamento em Paris. Preferem disseminar o caos, porque a alegria dos bons momentos ele rega com champagne em festas particulares com celebridades estéreis e etéreas de última hora.
"Na publicidade, que afinal é o meu negócio, embora sempre que eu fale nisso ele ache que o assunto está infantil demais (lembrem-se, ele é um business man) ele sabe também que há bundões prontos a gastar mais para contratar uma meia dúzia de artistas famosos, cantando um jingle com uma logomarca formada por funcionários da empresa, do que se "arriscarem" a criar um posicionamento de verdade, uma linguagem proprietária, um estilo único e próprio. Na visão desse chupa-sangue de plantão, ele está certo. Tanto que acerta duas vezes com uma mesma tacada: acalenta os desejos mais primitivos de um ou outro cliente cagão e ainda fatura muito mais em cima do trouxa que tem que enfiar todo o dinheiro do mundo para ser ouvido/visto/lembrado com uma bobajada cheia de clichês e formulinhas baratas, que definitivamente não sobreviveriam a um plano de mídia comprado com poucos recursos.
"De quebra, ele ainda usa todo o seu arsenal de repetidores e baba-ovos da imprensa e arredores para confirmar que um monte de estrume na verdade é um pote de ouro. E o bobo alegre que aprovou e pagou pela campanha acha que fez a coisa certa de novo. Reis nus. Que se sentem vestidos com o melhor da tecnologia e design da indústria têxtil. E eu, daqui do alto da minha inocência, só vejo que eles têm pênis pequenos.
"Não é à toa que ele está tão preocupado com a crise de liquidez que todos vamos enfrentar nos próximos tempos. Ele sabe que o dinheiro, quanto mais valioso e raro fica, melhor tem que ser aplicado. E, com menos dinheiro, é a inteligência o que a propaganda vai voltar a exigir. Quanto mais economizarmos, compensados por uma mensagem forte e memorável, mais eficientes seremos para os nossos clientes. Ninguém lembra de um amigo medíocre que fala pouco, alguns até se recordam de um amigo chato que fala muito, mas todos sentem saudades do amigo genial que falava coisas legais. Ou seja: o modelo de negócio dele desmoronou. A festa acabou para quem não passava de vendedor de um montão de espaço na mídia e começou para quem tem o Que e o Como dizer nesse espaço, que será inevitavelmente menor.
"E isso ele não sabe fazer.
"Isso foi o que suscitou o nosso duelo na última quinta-feira. Ao contrário do que ele ainda tentou fazer alguns crerem, eu não estava discutindo sobre o ofício da criação ou sobre "leões em Cannes". Ao contrário do que ele fingiu que estava acontecendo, a nossa discussão não era sobre a criatividadezinha e os sonhos dos seus pequenos criadores. Nós discutíamos sim era sobre uma questão que, apesar de tudo, ele mesmo ainda tem senso crítico suficiente para entender, mesmo que intimamente isso seja altamente doloroso, já que foi o que um dia ele mesmo já tanto defendera.
"Nós estávamos discutindo caráter. Porque, ao contrário dos que não oferecem o melhor para os seus clientes por falta de recursos, talento, ferramental, essa mediocrização a que ele está submetendo as agências controladas por ele é um esforço premeditado para esvaziar toda e qualquer possibilidade de que o discurso dos que fazem melhor, com mais interesse, mais cuidado, mais compromisso e mais responsabilidade se reestabeleça.
"O trabalho que as agências do Nizan Guanaes faz, a maneira como ele trata seus funcionários, as propostas comerciais indecorosas que elas oferecem aos seus clientes não seriam um problema tão grande se não fosse o fato, como eu já disse, de que o discurso que o embasa é avassaladoramente mais potente que o que nós e outros poucos como nós, conseguimos rebater daqui. Quando alguém vende a alma ao demônio isso deixa de ser um problema exclusivamente dele, quando esse alguém vai à Caras, à Exame e à Veja para convencer a todos de que vender a alma é o certo.
"E o que aconteceu de bom no final de tudo isso? Na minha opinião, várias coisas. A primeira é que muitos agora viram que o que ele diz não é uma verdade. É uma opinião viciada, interesseira e oportunista. E não é a opinião do resto do mercado. Segundo, é que outros que pensam como nós entenderam que ele pode e deve ser confrontado. Terceiro, é que se definiram claramente os discursos e as práticas no dia-a-dia. Agora, já pode-se começar a entender que mediocridade e mesmice são apenas uma opção e, tanto são uma opção, que têm um lugar (ou um grupo) certo onde podem ser solicitadas.
"Mas existem sim outras opções e nós estamos na ponta entre as agências de propaganda latu-sensu que oferecem essa opção. Quarto, é que sempre é bom ver os que se fazem de bonzinhos e corretos finalmente mostrando as suas garras e suas verdadeiras motivações. Naquele mesmo dia, à tarde, o Nizan me telefonou aqui na agência. Como eu não o atendi, deixou, literalmente, o seguinte recado com a Sueli: "Diga ao Fábio que ele é viado, frouxo, que ele me bate em público mas se ele for homem que telefone para mim!"
"Disse também, mais tarde, em um jantar com pessoas que me conhecem que "Eu só não bati em Fábio Fernandes porque ele estava maquiado - e eu não bato em homem maquiado". Para os que não entenderam o enigma (como eu, que fui perguntar a uma pessoa que o conhece) ele acha que eu... passo lápis nos olhos. Sim, acreditem. Alguém, inclusive, já o ouviu relatando que alguém lhe contou que uma certa vez, sob a chuva, o lápis dos meus olhos borrou e eu corri para colocar os óculos escuros... :-))))) Inacreditável, mas é a mais pura verdade. Foi a esse ponto que esse sujeito chegou.
"Por isso mesmo eu resolvi escrever a todos vocês sobre isso. Porque o que eu tenho a dizer sobre ele é bem pior do que seria se ele apenas usasse lápis para ressaltar os seus lindos olhos. O que eu tenho a dizer sobre ele é claro, verdadeiro, profundo e cabal. Fico feliz de não me maquiar, mas não teria problema nenhum em admiti-lo se, ainda que absurdo, isso fosse verdade. O duro para ele deve ser ouvir o que eu penso - e que a cada dia mais gente vem me dizer que foi bom eu dizê-lo porque é o que quase todo mundo pensa - e, mesmo sendo a mais aguda verdade, não poder admiti-lo.
Porque é revelador, comprometedor e devastador.
"O rei está nu. E eu sei que ele não é de nada."
Fabio Fernandes
F/Nazca Saatchi & Saatchi
Agency of The Year 1999, 2001, 2003, 2004, 2005, 2006, 2007.
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
Nota do PSDB em apoio a Alckmin
"A direção do PSDB, tanto no plano municipal, quanto no estadual e no federal, bem como o Governador José Serra, fizeram um esforço extraordinário para que o partido e o DEM se mantivessem aliados nas eleições para Prefeitura de São Paulo, o que não foi possível, tendo em vista que ambos resolveram, por decisão de suas bases e com inteira legitimidade, disputar as referidas eleições com candidatos próprios.
Não esperavam, entretanto, os órgãos diretivos do PSDB, que alguns de seus filiados, contrariando o que foi decidido em Convenção, viessem manifestar o seu apoio ao candidato do DEM.
Esse procedimento é recriminado pela direção do partido, que renova o seu integral apoio à candidatura de Geraldo Alckmin e insiste em que todos se concentrem na campanha do candidato tucano, trabalhando decididamente para que ela possa chegar ao 2o. turno das eleições."
Sérgio Guerra - Presidente Nacional
Antônio Carlos Mendes Thame - Presidente do Diretório Estadual - SP
José Henrique Reis Lobo - Presidente do Diretório Municipal - SP
Data: 1 de outubro de 2008
Não esperavam, entretanto, os órgãos diretivos do PSDB, que alguns de seus filiados, contrariando o que foi decidido em Convenção, viessem manifestar o seu apoio ao candidato do DEM.
Esse procedimento é recriminado pela direção do partido, que renova o seu integral apoio à candidatura de Geraldo Alckmin e insiste em que todos se concentrem na campanha do candidato tucano, trabalhando decididamente para que ela possa chegar ao 2o. turno das eleições."
Sérgio Guerra - Presidente Nacional
Antônio Carlos Mendes Thame - Presidente do Diretório Estadual - SP
José Henrique Reis Lobo - Presidente do Diretório Municipal - SP
Data: 1 de outubro de 2008
sexta-feira, 11 de julho de 2008
Advogados eram elo com o Planalto
Raymundo Costa, Valor Econômico
Nos anos que se seguiram ao escândalo do "mensalão", o Palácio do Planalto fez uma verdadeira faxina entre os auxiliares mais ligados a Daniel Dantas, dentro do governo e do PT. Por isso, hoje, se declara tranqüilo em relação às investigações da Polícia Federal sobre as atividades do banqueiro, muito embora seja concreta a suspeita de que gente do próprio governo confirmou para Dantas a existência da operação da PF, que deveria ser sigilosa. Alguns dos "40 do mensalão" avaliam que o inquérito pode ajudá-los, se chegar à real origem das transações de Dantas, que julgam estar nas privatizações do governo do PSDB.
O elo mais visível entre Dantas e o Planalto é o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, que não nega ter assessorado Dantas judicialmente e de haver levantado os procedimentos policiais e judiciais existentes contra o dono do Opportunity. LEG, como é chamado pelos amigos, conheceu Dantas há pouco mais de um ano e o assessorou na fusão de Brasil Telecom e Oi. Ex-advogado do presidente Lula, do PT e ex-deputado federal, Greenhalgh tem trânsito no governo, mas nunca foi um nome ligado ao banqueiro como foi, por exemplo, o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares. Ou o ex-ministro José Dirceu, conforme apontado na CPI dos Correios. Outro elo entre Dirceu e o Opportunity é o advogado José Luiz de Oliveira Lima, que antes de assumir a defesa de Dirceu, no processo de cassação do ex-deputado, trabalhou para a BrT.
O advogado foi contratado por R$ 1 milhão para defender Dantas no "caso Kroll" (a investigação de nomes-chaves do governo a pedido do banqueiro) por intermédio do publicitário Humberto Braz. Outro publicitário ligado ao dono do Opportunity, Guilherme Sodré, o Guiga, ex-marido da mulher do governador Jaques Wagner (Bahia), foi quem intermediou o contato de Greenhalgh com Dantas.
O banqueiro sempre manteve relações cordiais com o poder, independente de quem ocupava o Planalto. No Congresso, desenvolveu excelente relações com senadores como Antonio Carlos Magalhães - que por mais de uma vez o indicou para a Fazenda -, Jorge Bornhausen e Heráclito Fortes. Quando a oposição tomou o poder, tratou de se acercar dos antigos adversários, especialmente do núcleo mais próximo de Lula. Primeiro por meio do ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares e do advogado Roberto Teixeira, compadre de Lula. O deputado José Eduardo Cardozo e o ex-deputado Sigmaringa Seixas são outros petistas apontados como próximos.
Entre o fim de março e o início de abril de 2006, Dantas teria decidido sair dos negócios de telefonia. Por meio de Guiga, pediu um encontro com Greenhalgh. Apesar dos 80 mil votos nas eleições de 2006, Greenhalgh não se reelegera, esteve cotado para assumir algum cargo, mas acabou voltando para a antiga profissão de advogado. A princípio - na conversa que teve com Dantas uma semana depois do encontro com Guiga - LEG relutou, mas acabou cedendo aos argumentos do banqueiro.
Sempre em movimento, dando voltas em torno da mesa, Dantas queixou-se de que só arrumara inimigos nos negócios das telecomunicações e queria deixar o ramo. Alegava que vivia na mira da Polícia Federal. Estava certo: a PF não esquecia dele desde que foi apontado como suposto autor de um dossiê sobre contas secretas de Lula e do diretor-geral da PF, à época, Paulo Lacerda, hoje na Abin.
O banqueiro foi aconselhado pelo advogado a dizer claramente que queria deixar os negócios na área das teles, o que ninguém acreditava, e acabar com a guerra judicial que mantinha com os sócios. Isso daria credibilidade para ele tentar um acordo com os sócios.
O primeiro passo foi o levantamento das ações existentes contra Dantas e dele contra seus sócios. Após duras negociações - os outros sócios chegaram a se unir na guerra contra Dantas -, chegou-se ao acordo: as partes se comprometiam a não mais ajuizar ações um contra o outro no futuro, e a retirar simultaneamente todas as demais em curso na Justiça.
Foi quando a repórter Andrea Michael, da "Folha de S. Paulo", publicou que o acordo não interrompera uma investigação sigilosa da PF que deveria levar à prisão de Dantas. A equipe de advogado entrou em campo, inclusive Greenhalgh, que, além de sondar seus contatos no governo e no Congresso, fez uma varredura na Justiça para conferir se havia algum procedimento em curso em relação a Dantas. Todos os juízes responderam "não" à petição enviada à desembargadora Cecília Melo, menos um, Fausto de Sanctis, que quis saber se o questionamento se referia só ao disco rígido de um computador ou a qualquer coisa.
A primeira análise dos advogados era de que se tratava de uma reportagem com o objetivo de fazer um acordo entre as partes. LEG leu o contrário: achava que era uma vingança. Isso acendeu a luz amarela entre os defensores de Dantas, que pediram o habeas corpus preventivo no Superior Tribunal de Justiça (STJ), que foi negado.
Logo depois, Humberto Braz, também investigado pela PF, percebeu que estava sendo seguido quando levava o filho à escola. A polícia interceptou o carro e os ocupantes disseram que eram da Abin. Greenhalgh voltou ao circuito. Ligou para o chefe de gabinete do presidente, Gilberto Carvalho. Mas só na manhã de terça-feira - com os agentes já nas ruas - ficou sabendo que era a PF que estava interessada não só nas atividades do seu cliente, como nas dele próprio.
LEG se recusa a dar entrevistas. Mas a amigos disse que estava tranqüilo: sua relação com Dantas é recente, profissional. Ele crê que, com mais de 30 anos de profissão, além de ser deputado, evidentemente tem amigos aos quais recorreu para entender a situação de seu cliente. Mas estava irritado com a insinuação de que participou do esquema que tentou corromper um delegado da PF.
Valor Econômico, 11 de julho de 2008
O elo mais visível entre Dantas e o Planalto é o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, que não nega ter assessorado Dantas judicialmente e de haver levantado os procedimentos policiais e judiciais existentes contra o dono do Opportunity. LEG, como é chamado pelos amigos, conheceu Dantas há pouco mais de um ano e o assessorou na fusão de Brasil Telecom e Oi. Ex-advogado do presidente Lula, do PT e ex-deputado federal, Greenhalgh tem trânsito no governo, mas nunca foi um nome ligado ao banqueiro como foi, por exemplo, o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares. Ou o ex-ministro José Dirceu, conforme apontado na CPI dos Correios. Outro elo entre Dirceu e o Opportunity é o advogado José Luiz de Oliveira Lima, que antes de assumir a defesa de Dirceu, no processo de cassação do ex-deputado, trabalhou para a BrT.
O advogado foi contratado por R$ 1 milhão para defender Dantas no "caso Kroll" (a investigação de nomes-chaves do governo a pedido do banqueiro) por intermédio do publicitário Humberto Braz. Outro publicitário ligado ao dono do Opportunity, Guilherme Sodré, o Guiga, ex-marido da mulher do governador Jaques Wagner (Bahia), foi quem intermediou o contato de Greenhalgh com Dantas.
O banqueiro sempre manteve relações cordiais com o poder, independente de quem ocupava o Planalto. No Congresso, desenvolveu excelente relações com senadores como Antonio Carlos Magalhães - que por mais de uma vez o indicou para a Fazenda -, Jorge Bornhausen e Heráclito Fortes. Quando a oposição tomou o poder, tratou de se acercar dos antigos adversários, especialmente do núcleo mais próximo de Lula. Primeiro por meio do ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares e do advogado Roberto Teixeira, compadre de Lula. O deputado José Eduardo Cardozo e o ex-deputado Sigmaringa Seixas são outros petistas apontados como próximos.
Entre o fim de março e o início de abril de 2006, Dantas teria decidido sair dos negócios de telefonia. Por meio de Guiga, pediu um encontro com Greenhalgh. Apesar dos 80 mil votos nas eleições de 2006, Greenhalgh não se reelegera, esteve cotado para assumir algum cargo, mas acabou voltando para a antiga profissão de advogado. A princípio - na conversa que teve com Dantas uma semana depois do encontro com Guiga - LEG relutou, mas acabou cedendo aos argumentos do banqueiro.
Sempre em movimento, dando voltas em torno da mesa, Dantas queixou-se de que só arrumara inimigos nos negócios das telecomunicações e queria deixar o ramo. Alegava que vivia na mira da Polícia Federal. Estava certo: a PF não esquecia dele desde que foi apontado como suposto autor de um dossiê sobre contas secretas de Lula e do diretor-geral da PF, à época, Paulo Lacerda, hoje na Abin.
O banqueiro foi aconselhado pelo advogado a dizer claramente que queria deixar os negócios na área das teles, o que ninguém acreditava, e acabar com a guerra judicial que mantinha com os sócios. Isso daria credibilidade para ele tentar um acordo com os sócios.
O primeiro passo foi o levantamento das ações existentes contra Dantas e dele contra seus sócios. Após duras negociações - os outros sócios chegaram a se unir na guerra contra Dantas -, chegou-se ao acordo: as partes se comprometiam a não mais ajuizar ações um contra o outro no futuro, e a retirar simultaneamente todas as demais em curso na Justiça.
Foi quando a repórter Andrea Michael, da "Folha de S. Paulo", publicou que o acordo não interrompera uma investigação sigilosa da PF que deveria levar à prisão de Dantas. A equipe de advogado entrou em campo, inclusive Greenhalgh, que, além de sondar seus contatos no governo e no Congresso, fez uma varredura na Justiça para conferir se havia algum procedimento em curso em relação a Dantas. Todos os juízes responderam "não" à petição enviada à desembargadora Cecília Melo, menos um, Fausto de Sanctis, que quis saber se o questionamento se referia só ao disco rígido de um computador ou a qualquer coisa.
A primeira análise dos advogados era de que se tratava de uma reportagem com o objetivo de fazer um acordo entre as partes. LEG leu o contrário: achava que era uma vingança. Isso acendeu a luz amarela entre os defensores de Dantas, que pediram o habeas corpus preventivo no Superior Tribunal de Justiça (STJ), que foi negado.
Logo depois, Humberto Braz, também investigado pela PF, percebeu que estava sendo seguido quando levava o filho à escola. A polícia interceptou o carro e os ocupantes disseram que eram da Abin. Greenhalgh voltou ao circuito. Ligou para o chefe de gabinete do presidente, Gilberto Carvalho. Mas só na manhã de terça-feira - com os agentes já nas ruas - ficou sabendo que era a PF que estava interessada não só nas atividades do seu cliente, como nas dele próprio.
LEG se recusa a dar entrevistas. Mas a amigos disse que estava tranqüilo: sua relação com Dantas é recente, profissional. Ele crê que, com mais de 30 anos de profissão, além de ser deputado, evidentemente tem amigos aos quais recorreu para entender a situação de seu cliente. Mas estava irritado com a insinuação de que participou do esquema que tentou corromper um delegado da PF.
Valor Econômico, 11 de julho de 2008
quinta-feira, 3 de julho de 2008
Brejal dos Guajas
Millôr Fernandes
Observação final (a não ser que solicitem muito) com demonstração de matemática elementar meu caro Watson (a partir de dados fornecidos inconscientemente pelo próprio autor), provando que o Brejal, com apenas duas ruas, era uma das maiores cidades do Maranhão, cuíca do mundo.
RATIONALE
1) Na pág. 60 está:
“− Quantos eleitores tem o Brejal?
− 2.053 − ambos responderam”.
II) Pode-se precisar razoavelmente a época da istória pela frase à pág. 10: os dois coronéis eram “da mesma corrente política invicta em todos os pleitos realizados desde a queda da ditadura”. Ribamar está falando da outra ditadura, 1930/45, anterior à dele, 1964/85. Ora, “todos os pleitos” são mais três, no mínimo. Dois, definitivamente, não são todos. Portanto, a istória(!) acontece por volta de 1960, mais ou menos 15 anos depois da queda da ditadura getulista. Isso é estatisticamente importante: nessa época, numa região pobre, a população abaixo de 18 anos elevava-se a mais de 60% (hoje é 40% em todo os país). Mas vamos deixar por 50%. Portanto, os 2.053 eleitores são parcela, não de 100% da população, mas de 50% dela, já que metade não estaria na faixa do voto.
III) Nas quatro linhas finais da istória, numa babaquice que pretende, acho, ser poética-social-irônica, o autor grandíloqua: “...E o povo do Brejal feliz: oitenta por cento de tracoma, sessenta de boba, cem por cento de verminose, oitenta e sete de analfabetos, mas feliz, ouvindo a valsa do Brejal, Brejal dos Guajajaras”.
IV) Ora, quem tem 87% de analfabetos tem apenas 13% de alfabetizados. Como os 50% da população abaixo dos de 18 anos não votam (embora, por serem mais novos, devam ter até maior índice de alfabetização) isso significa que dos 13% de alfabetizados apenas 6,5% votam. Quer dizer, os 2.053 eleitores correspondem a 6,5% da população total. Façam agora uma simples regra de três: “6,5% estão para 2.053 assim como 100% estão para X”, e verificarão que Brejal dos Guajas tinha uma população de 31.584 pessoas. Mesmo distribuindo generosamente 60% dessa população pra área rural (município − do qual, aliás, não se fala), ainda assim teríamos 12.683 pessoas nas duas ruas.
105 pessoas por casa!
Eta, apertamento!
RATIONALE
1) Na pág. 60 está:
“− Quantos eleitores tem o Brejal?
− 2.053 − ambos responderam”.
II) Pode-se precisar razoavelmente a época da istória pela frase à pág. 10: os dois coronéis eram “da mesma corrente política invicta em todos os pleitos realizados desde a queda da ditadura”. Ribamar está falando da outra ditadura, 1930/45, anterior à dele, 1964/85. Ora, “todos os pleitos” são mais três, no mínimo. Dois, definitivamente, não são todos. Portanto, a istória(!) acontece por volta de 1960, mais ou menos 15 anos depois da queda da ditadura getulista. Isso é estatisticamente importante: nessa época, numa região pobre, a população abaixo de 18 anos elevava-se a mais de 60% (hoje é 40% em todo os país). Mas vamos deixar por 50%. Portanto, os 2.053 eleitores são parcela, não de 100% da população, mas de 50% dela, já que metade não estaria na faixa do voto.
III) Nas quatro linhas finais da istória, numa babaquice que pretende, acho, ser poética-social-irônica, o autor grandíloqua: “...E o povo do Brejal feliz: oitenta por cento de tracoma, sessenta de boba, cem por cento de verminose, oitenta e sete de analfabetos, mas feliz, ouvindo a valsa do Brejal, Brejal dos Guajajaras”.
IV) Ora, quem tem 87% de analfabetos tem apenas 13% de alfabetizados. Como os 50% da população abaixo dos de 18 anos não votam (embora, por serem mais novos, devam ter até maior índice de alfabetização) isso significa que dos 13% de alfabetizados apenas 6,5% votam. Quer dizer, os 2.053 eleitores correspondem a 6,5% da população total. Façam agora uma simples regra de três: “6,5% estão para 2.053 assim como 100% estão para X”, e verificarão que Brejal dos Guajas tinha uma população de 31.584 pessoas. Mesmo distribuindo generosamente 60% dessa população pra área rural (município − do qual, aliás, não se fala), ainda assim teríamos 12.683 pessoas nas duas ruas.
105 pessoas por casa!
Eta, apertamento!
Extraído de "Diário da Nova República, Vol. 3"
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