sábado, 8 de agosto de 2009

Elle, o de sempre

Roberto Pompeu de Toledo
Veja, 8 de agosto de 2009

"Quando Collor se cansou de Simon e de Sarney, sobrou
para quem? O colunista que vos fala. O que disse é mentira.
Mais uma vez: MENTIRA. E uma terceira: MEN-TI-RA"


Pode sentir-se defendido quem tem em sua defesa a dupla formada pelos senadores Renan Calheiros e Fernando Collor de Mello? Há defesas que ferem como ataque. Num primeiro momento funcionam, como funcionou a furibunda blitz desfechada pela dupla contra o senador Pedro Simon, na memorável sessão do Senado da última segunda-feira. A torrente de insultos, insinua-ções e, da parte de Collor, assustadoras caretas lançadas contra Simon intimidou o senador gaúcho a ponto de, como ele afirmaria mais tarde, ter sentido medo físico. Mas o ônus de carregar pela vida afora, e biografia adentro, o fato de ter contado com tais defensores supera o alívio momentâneo. Os senadores do PT sabem disso e conspicuamente procuram se dissociar dos referidos senhores. Já o presidente do Senado, José Sarney, não bastassem os próprios problemas, é refém de um duo cujo abraço aperta, aprisiona e sufoca como tenaz.

O senador Collor superou-se, naquele dia, na utilização dos velhos recursos em favor do novo papel de injustiçado e sofredor. Buscando inspiração no aparelho digestivo, ordenou a Simon que "engolisse" as próprias palavras e "as digerisse como julgasse conveniente". Chamou o honrado senador de "parlapatão". E enquanto isso armava seu impressionante repertório de expressões fisionômicas e exalações corporais, um conjunto que, querendo sublinhar indignação, acaba por revelar um perturbador descontrole. A respiração era pesada como a do touro ao investir contra o pano vermelho. Repetiam-se os estranhos olhos fixos de outras ocasiões. E a alturas tantas, quando se cansou de Simon e de Sarney, sobrou para quem? Quem? Quem? O colunista que vos fala. Disse ele que "o jornalista chamado Roberto Pompeu de Toledo, que costuma sujar a última página de uma revista local, se não me engano a VEJA", procurou o ministro Ilmar Galvão, encarregado, no Supremo Tribunal Federal, de relatar o processo contra ele, Collor, à época do impeachment, e lhe propôs: "Ministro, declare a culpa do Fernando Collor que nós daremos ao senhor a capa e as entrevistas de páginas amarelas da revista". O ministro, indignado, teria expulsado o interlocutor de seu gabinete.

Deus do céu, quanta pretensão, num pobre jornalista, achar que a efêmera glória do bom tratamento num órgão de imprensa pudesse influenciar o julgamento de um ministro do Supremo! Collor acrescentou que Roberto Pompeu de Toledo não poderia desmentir tal episódio. Pode sim. É mentira. Mais uma vez: MENTIRA. E uma terceira: MEN-TI-RA. A conversa que na época o colunista teve com Ilmar Galvão não teve nunca, jamais e em tempo algum o caráter de (ingênua) negociação do julgamento do ministro contra possível tratamento privilegiado em VEJA. Mesmo se, enlouquecido, o jornalista quisesse fazê-lo, não teria poderes, como não tem agora, nem nunca teve, de dispor da capa ou das páginas amarelas da revista. Seu único e singelo objetivo era informar-se. Claro está que se não houve o principal – uma tentativa de negociação – também não houve o secundário – a expulsão do gabinete. Em todo caso, registre-se que o cinematográfico desfecho pretendido pelo senador é outra mentira, MENTIRA, MEN-TI-RA. A entrevista transcorreu em clima de cordialidade.

Como encerrar este artigo? Primeira hipótese: dizer que sujar páginas por sujar páginas, perito mesmo na especialidade é o ex-presidente – no caso, sujar as páginas da história do Brasil. Sentencioso demais. Se os leitores permitem a falta de modéstia, o colunista gostaria na verdade é de congratular-se consigo mesmo. Ao contrário de Sarney, ele não tem Collor como defensor. Tem como acusador. É uma honra.

•••

Por falar em fisionomia, e para arejar o ambiente com caso oposto ao da carranca oferecida por Collor a Simon, a fisionomia do momento, no Brasil, é a do vice-presidente José Alencar. O fato de ele estar impelido a correr de internação em internação, e de operação em operação, dentro daquilo que se convencionou chamar de "luta" contra o câncer, é o de menos. Como ele próprio alega, não dispõe de alternativa. Muitos também o fariam – e fazem –, especialmente quando têm recursos para pagar o tratamento. O que impressiona é a serenidade com que enfrenta o infortúnio, manifestada no sorriso e no jeito bonachão que estampa nas entradas e saídas do hospital. Seu comportamento, na mais decisiva das horas que espera um mortal, cativou o país. A ele seria dedicada a coluna desta semana, se o homem das Alagoas não se interpusesse no caminho. Fica o registro.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

A escala lulista de valores

Editorial
O Estado de S. Paulo, 19 de junho de 2009

O presidente Lula é um político que não tem princípios. Tem fins. Dele só se poderia esperar, portanto, que saísse em defesa do presidente do Senado, José Sarney, engolfado pela onda de escândalos na instituição que comanda pela terceira vez. É notório que Lula deve a alma, como se diz, a Sarney, seu aliado firme desde a campanha de 2002, e conta com ele e a sua patota para adquirir em 2010 a adesão do PMDB à candidatura da ministra Dilma Rousseff - a "sacerdotisa do serviço público", como o senador a endeusou em um comício. Além disso, desde que alcançou o Planalto, Lula tem demonstrado uma coerência impecável: sempre que se viu obrigado a escolher entre a ética e a conveniência, jamais desapontou os que apostavam que ficaria com esta em detrimento daquela. Ainda há pouco, quando rebentou na Câmara a história da farra das passagens aéreas, Lula deu de ombros. "Sempre foi assim", desdenhou, como que repetindo o comentário, no auge da crise do mensalão, em 2005, de que o caixa 2 é "usado sistematicamente" por todos os partidos.

Mesmo que novamente ele tenha confirmado o retrospecto, suas palavras chamam a atenção por desnudar uma vocação insanável para a desmoralização das instituições. Se as posições do presidente não surpreendem, os termos que lhe ocorrem para manifestá-las retratam uma mentalidade à qual pode se aplicar, no sentido mais raso, o que já considerou "a evolução da espécie humana" (para justificar a teoria de que, com a idade, os esquerdistas migram para o centro). Na política, ele não perde para ninguém em matéria de capacidade adaptativa. Vinte anos atrás, quando fazia questão de se exibir como o demolidor de "tudo isso que está aí", dizia que Sarney era "grileiro" e "grande ladrão". Hoje, quando inebriado pelas delícias do poder só pensa em desfrutá-las pelo maior tempo possível, ensina que "Sarney tem história suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum". Pelo visto, na atual escala lulista de valores, as pessoas incomuns devem desfrutar de um salvo-conduto que lhes permita afrontar, se não a lei, o decoro pelo qual, dada a sua condição, deveriam ser as primeiras a zelar.

O presidente fez coro com o senador bom companheiro que foi à tribuna invocar a "correção de uma vida austera, de família bem composta" como uma espécie de manto protetor contra críticas e notícias constrangedoras - como o recebimento indevido, meses a fio, de R$ 3.800,00 de auxílio-moradia (o que primeiro negou e depois disse desconhecer) ou o fato de ter sete parentes e dois afilhados políticos incluídos por baixo dos panos na folha de pagamento do Senado. Lula também ecoou a versão sarneyana de que é vítima de "setores radicais da mídia" e outros supostos interessados em enfraquecer o Legislativo, ao desqualificar como "denuncismo" a exposição objetiva de indecências que os políticos e seus parceiros na alta burocracia do Congresso escondiam nos porões. O caso escabroso dos atos administrativos secretos, já na casa dos 650, por exemplo, foi revelado por dois repórteres deste jornal que tiveram acesso às descobertas de uma comissão de sindicância do próprio Senado.

Impermeável à realidade e com a sua famosa quase-lógica, Lula perguntou retoricamente "o que ganharia o Senado em ter uma contratação secreta, se tem mais de 5 mil funcionários transitando por aqueles corredores". Talvez ele devesse procurar a resposta com o notório Agaciel Maia, que recentemente teve de se demitir da direção-geral da Casa para a qual foi nomeado por Sarney há 14 anos. Lula atacou a imprensa por "todo dia arrumar uma vírgula a mais" no noticiário da esbórnia. Para ele, com o seu amoralismo, pode parecer uma vírgula. Para a opinião pública, é um ponto de exclamação. Ressalte-se que nada do que se veiculou sobre as mazelas das Casas do Congresso foi desmentido, o que torna dispensável a advertência do presidente sobre o risco de a imprensa ser "desacreditada". Ele se disse preocupado com as denúncias, porque "depois não acontece nada". Não venha o presidente do mensalão ofender a sensibilidade dos brasileiros ao sugerir que, em razão da impunidade - assunto sobre o qual ele pode falar de boca cheia -, melhor faria a mídia se o imitasse, compactuando, nesse caso pelo silêncio, com os abusos dos poderosos.

terça-feira, 5 de maio de 2009

As denuncias de Ana Julia

A governadora do Pará denuncia as pressões de Greenhalgh e Gilmar Mendes a favor de Daniel Dantas


Leandro Fortes
Carta Capital, 4 de maio de 2009

Em janeiro de 2008, a governadora do Pará, Ana Júlia Carepa, foi surpreendida por um telefonema de um antigo companheiro do PT, o ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh. De São Paulo, Greenhalgh manteve uma conversa evasiva e pediu uma audiência com a governadora. De pronto, Ana Júlia convidou o correligionário para um almoço na residência oficial, em Belém. O que deveria ter sido uma conversa entre velhos amigos tornou-se um encontro constrangedor. Greenhalgh levou a tiracolo o empresário Carlos Rodenburg, então vice-presidente do Banco Opportunity e ex-cunhado do banqueiro Daniel Dantas. Enquanto saboreava um peixe da região, a governadora haveria de descobrir um segredo que só seria revelado ao País dali a seis meses, após a Operação Satiagraha: Greenhalgh, antigo defensor de trabalhadores rurais e presos políticos da ditadura militar, havia se tornado advogado e lobista de Dantas. O petista intercedeu a favor do banqueiro e de suas atividades pecuárias no Pará.

Na quarta-feira 29, Ana Júlia Carepa recebeu CartaCapital no escritório da representação do estado do Pará, no Setor Comercial Sul de Brasília. A governadora não consegue esconder a decepção de ver o companheiro Greenhalgh do outro lado da trincheira e denuncia uma conspiração, segundo ela, montada pela turma de Dantas para tentar passar a imagem de que o Pará é uma terra sem lei.

CartaCapital: De que maneira o ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh se aproximou da senhora para interceder pelo Opportunity?
Ana Júlia Carepa:
O Greenhalgh é um companheiro por quem sempre tive muito respeito. Ele telefonou para mim, de São Paulo, e disse que precisava falar comigo, que viria a Belém, em janeiro de 2008. Eu falei “pois não, meu companheiro”. Quando ele chegou, percebi que tinha vindo com Rodenburg (Carlos Rodenburg, do Opportunity). Fiquei surpresa.

CC: Qual foi a sua reação?
AJC:
Eu me virei e disse a ele (Rodenburg): “Já o conheço de situações bem menos confortáveis do que esta aqui”. Eu o conhecia da CPI dos Correios, ele estava lá acompanhando o Daniel Dantas, a quem desafiei muitas vezes e acusei de subjugar os fundos de pensão, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, para manter o controle acionário da Brasil Telecom. Mesmo assim, seguimos para a residência oficial e fomos almoçar.

CC: Havia mais alguém nesse almoço, além de vocês três?
AJC:
Sim, o meu então chefe de gabinete, João Cláudio Arroio.

CC: O que Greenhalgh e Rodenburg queriam?
AJC:
Eles queriam “vender” a imagem da empresa (Agropecuária Santa Bárbara) e reclamar que tinham recebido uma notificação de crime ambiental da Secretaria de Meio Ambiente do Pará. Perguntaram se era uma coisa específica para eles. Eu disse que não, pois a certificação ambiental é obrigação de todo mundo. Somos cobrados por isso. Greenhalgh queria saber especificamente sobre esse documento, do qual o governo do Pará não abre mão. Disse que se eles precisassem de mais algum prazo para levantar a documentação não seria problema. Mas o documento seria mantido. Disse que a única exigência que o estado faz para qualquer empreendedor do Pará é que trabalhe dentro da legalidade, dentro das leis ambientais, e por isso mesmo houve a notificação.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Enquanto a morte não chega

Miguel Mora

Folha de S. Paulo, 6 de abril de 2009
 

"Não sei se estou meio morto ou meio vivo. O que sei é que a ameaça dos Casaleses [clã mafioso] me converteu em uma pessoa pior. Mais desconfiada, mais egoísta. Sinto ódio dos amigos que me abandonaram quando o livro saiu, entre uma partida de Playstation e uma da Liga Fantástica. Apenas saio de casa. Não posso usar cartão de crédito. Vivo sob escolta 24 horas por dia. Deixei de ser um homem -virei uma equipe. Os rapazes são ótimos, são napolitanos como eu. Praticamos esportes juntos, lutamos boxe no ginásio... Mas sinto falta de Nápoles, aqueles eternos atrasos de trem na estação... O tempo se deformou, os minutos são estranhos, cada movimento banal requer um dia inteiro. E não posso mais fazer as coisas mais simples: passear, tomar uma bebida num bar, comprar uma geladeira. Ontem fomos ao supermercado, e foi patético. Os ‘carabinieri’ [policiais militares] em torno do carrinho, todos opinando sobre a pasta que eu devia comprar. As pessoas se assustaram; nos abriram um espaço no caixa para que fôssemos embora logo. Quando saímos, eu disse aos rapazes: ‘Não vamos voltar’.’

Assim é a vida de Roberto Saviano. Uma vida que não é vida, uma vida-morte, uma espécie de morte em vida.

O sucesso de ‘Gomorra’ [ed. Bertrand Brasil], um dos maiores fenômenos da história italiana, converteu-se numa maldição para seu autor.

Reconhecimento, prêmios e elogios, fama, dinheiro e viagens, nada disso compensa o outro lado da moeda: Saviano foi difamado, cuspido e insultado pelos jovens de sua própria terra, abandonado por seus amigos, condenado à morte.

E hoje vive agachado, rodeado de armas e de policiais, em alta velocidade e à meia-voz.

O Sistema

Tem apenas 29 anos, mas percebe-se que já não é mais aquele rapaz que gostava de contar piadas e que ia conquistar o mundo quando formou-se em filosofia pela Universidade Federico 2º, em Nápoles.

Foi naquela época que Saviano começou a escrever seu primeiro relato real, intitulado ‘La Terra Padre’ [A Terra Pai]. Naturalmente, o tema era a Camorra.

Conforme descrita por Saviano, a máfia napolitana, ou, melhor, da região da Campanha, deixou de ser o que era aos olhos de muitas pessoas -um grupo de bandidos dirigidos por tipos mais ou menos honrados que traficam e assassinam, mas que, no fundo, protegem uma população abandonada à própria sorte (embora esta última parte continue sendo verdade).

Ela passou a ser O Sistema, uma poderosa holding criminal que, de acordo com o último censo feito pelo chefe dos ‘carabinieri’ de Nápoles, o general Gaetano Maruccia [leia entrevista na pág. 6], responsável pela segurança de Saviano, ‘tem pelo menos 80 clãs e mais de 3.000 filiados armados, aos quais se soma uma extensa rede de colaboradores’.

Quando Saviano começou a escrever, era um jovem feliz, embora trabalhasse sem parar.

‘Eu tinha quatro ou cinco trabalhos: numa pizzaria, dando aulas de reforço para crianças à tarde, como pedreiro ocasional no campo de Caserta, bolsista de doutorado em história contemporânea e colaborador de periódicos e sites.’

Levou apenas alguns meses para juntar os 11 relatos verídicos que formam ‘Gomorra’.

Pouco depois, o manuscrito se converteu em livro, graças ao faro dos editores da Mondadori. ‘Publicaram meu primeiro relato na revista ‘Nuovi Argumenti’ (em abril de 2005), e depois fecharam comigo um contrato de promessa jovem. Me deram 5.000 de adiantamento por 5.000 cópias’, recorda Saviano.

Logo depois esse contrato deu lugar a outro, com valores estelares. ‘Em maio de 2006, quando o livro finalmente saiu nas livrarias, eu era o cara mais feliz do mundo. Vivi os cinco melhores meses de minha vida. Eu era um homem livre. Ganhei o Prêmio Viareggio, comecei a escrever no ‘La Repubblica’ e no ‘Espresso’, a falar na televisão... E, de repente, tudo parou. Tudo o que aconteceu desde então eu não vivi.’

Chegaram as primeiras ameaças dos Casaleses, o clã do povoado onde Saviano cresceu, Casal di Principe. E eram inequívocas. Ele teria que morrer. Não apenas sabia demais e tinha contado o que sabia, dando nomes e sobrenomes, relacionando cada informação com sua fonte, como também, e sobretudo, o livro havia chegado a pessoas demais.

A Camorra estava na boca de todos. Já não era o tradicional mal menor napolitano (fisiológico, à margem da lei). Era um câncer internacional.

Os juízes antimáfia levaram a advertência a sério. Era preciso protegê-lo, e rápido. No dia 13 de outubro de 2006, o ministro do Interior, Giuliano Amato, decidiu que Saviano deveria viver escoltado.

‘Lembro-me do dia em que os policiais militares vieram me buscar em casa para me levar ao quartel. Os vizinhos brincavam: ‘Robbè, finalmente estão prendendo você!’. Amato foi de uma sensibilidade extraordinária. Disse que o Estado tinha que me proteger, porque por mim defendia a liberdade de expressão, um princípio constitucional. Isso me converteu em símbolo da liberdade de expressão. Sempre o agradecerei por isso.’

Dois anos e quatro meses se passaram. Seus velhos amigos se afastaram dele. Sua antiga namorada o deixou. Sua família se dispersou ainda mais do que já estava dispersa (seus pais se separaram em pouco tempo).

E Saviano se culpa por tudo isso. Diz que lamenta por ‘ter destruído meu mundo por um livro e ter feito mal a todos os que me queriam bem’.

Sua vida está ‘suspensa, cancelada, detida’. É um destino quase irreversível.

Por questões de segurança, foram necessárias semanas para marcar o encontro para esta entrevista. A primeira tentativa foi adiada porque os níveis de alerta dispararam.

Um primo de Sandokan [líder mafioso] chamado Carmine Schiavone e colaborador com a Justiça (um ‘pentito’, ou arrependido), revelou que a Camorra tinha plano e data marcada. Iam matar Saviano antes do fim do ano, colocando uma bomba no caminho que ele percorreria na rodovia A1, que liga Roma a Nápoles.

Mas o nível de alerta diminuiu. Schiavone -que, mais do que um arrependido, parece ser o porta-voz da Camorra- declarou que seus ex-comparsas tinham decidido esperar que os holofotes fossem um pouco apagados antes de matá-lo. Com mais calma.

Finalmente pudemos marcar o encontro.

‘Vão acabar comigo’

Com a ajuda de sua amabilíssima assistente, Manuela, programamos ir juntos a Nápoles, fazer uma refeição com Saviano e conhecer seu amigo, o general Maruccia, chefe do Comando Provincial dos Carabinieri de Nápoles.

É 16 de janeiro, a manhã é bela e gelada, e os dois carros blindados chegam pontuais e muito juntos, deslizando com elegância italiana.

Saviano está sentado no primeiro carro, no banco de trás, à direita. As sirenes deixam de tocar, e os carros param. Cinco policiais descem e vasculham a rua com seus óculos escuros e seus ‘walkie-talkies’. Saviano continua sentado dentro do Lancia cinza.

Nos cumprimentamos e o fotógrafo começa a fazer imagens. Os guardas permanecem impassíveis. Estão acostumados. A esta altura, já foram fotografados 2.000 vezes e sabem que a Camorra conhece seus rostos milimetricamente. Mesmo assim, suas expressões não traem medo algum.

Saviano faz um apanhado do armamento: os Casaleses têm cem quilos de TNT e um arsenal de metralhadoras e pistolas. ‘Sei que vão acabar comigo. Cedo ou tarde, vão fazê-lo.’"


 

O homem blindado

Leia a seguir entrevista com Roberto Saviano.

PERGUNTA - Quer dizer que é assim sua vida atual?

ROBERTO SAVIANO -
É assim. Eles vão aos lugares antes de mim. Chegam primeiro, controlam tudo, e depois eu vou. Para qualquer coisa. Se é preciso comprar uma geladeira, por exemplo, eles vão na frente, depois eu vou, a olho, escolho o modelo, e então vamos a outra loja diferente para comprá-la. Nunca voltamos ao mesmo lugar.

PERGUNTA - O sr. sempre teve cinco guardas?

SAVIANO -
Comecei com dois, depois passaram a ser cinco.

PERGUNTA - O sr. muda muito de casa?

SAVIANO -
Sempre que observamos algum detalhe diferente. Por exemplo, se há uma obra em andamento num edifício próximo e sabemos que há pessoas de Nápoles trabalhando ali que já foram julgadas, eles me mudam de casa. Basta algo assim.

PERGUNTA - Eles o escoltam também dentro de casa?

SAVIANO -
Não, normalmente não entram em casa. Esperam atrás da porta. Vinte e quatro horas por dia.

PERGUNTA - Parecem tranquilos.

SAVIANO
- Têm muitos anos de experiência no combate à máfia. Já protegeram personalidades, juízes e ‘supertestemunhas’. Maruccia os escolheu.

PERGUNTA - Com tanto contato, vocês já devem ter virado amigos.

SAVIANO -
Claro, são magníficos. E isso me obriga a seguir adiante, a não desistir. Devo isso a eles, que me defendem.

PERGUNTA - O sr. encontra amigos em casa?

SAVIANO -
Poucas vezes. Muitos de meus amigos se afastaram desde que o livro saiu. Foi muito doloroso entender isso. É natural, porque você desaparece, vira invisível e se torna outra pessoa. Você fica desconfiado, vive nervoso, com a cabeça em outro lugar, e nada nem ninguém parece estar à altura trágica de sua situação...

PERGUNTA - A normalidade se torna absurda.

SAVIANO -
Sim, as propostas das pessoas normais, falar de coisas bobas, sair para tomar uma cerveja, bater papos superficiais, no início eu não suportava. Eu estava mergulhado num turbilhão no qual existia apenas meu trabalho, minha situação, e procurava respostas nos livros. Fiz uma espécie de descida aos infernos literários para entender quem, antes de mim, em situações mais graves, conseguiu sobreviver.

PERGUNTA - E quais autores o ajudaram?

SAVIANO -
Os perseguidos pelos soviéticos: Boris Pasternak [1890-1960], Varlam Shalamov [1907-82].... e, mais recentemente, Anna Politkovskaia [1958-2006], que acabou de forma trágica, mas sempre enfrentou as difamações. Não vou esquecê-la. Tampouco me esqueço das cartas e dos diários do juiz Giovanni Falcone [1939-92], o que ele escreveu e publicou, porque resistiu a ataques cotidianos, parecidos com os que eu sofro.

PERGUNTA - E, tantas vezes, com a cumplicidade do governo.

SAVIANO -
Sim. Estou convencido de que, na Itália, quando se luta contra determinados poderes, o destino das pessoas está selado. Não necessariamente de forma trágica, embora muitas vezes seja assim.

PERGUNTA - Deixando o sr. fora do circuito?

SAVIANO -
Eles o caluniam, dizem que você está se exibindo, que está procurando publicidade. É isso que é incrível, porque se cria um círculo vicioso que impede que você tenha a palavra. E o que as máfias temem é justamente isso: a atenção.

PERGUNTA - Quando o sr. escreveu o livro, imaginou que aconteceria algo assim?

SAVIANO -
Eu era um sujeito jovem que lia, discutia e escrevia.. De repente me vi no meio desta guerra. Pensava que teria problemas, mas não tão graves. Agora não posso pôr os pés em Nápoles. Esta viagem é a primeira que faço em um mês. Todas as cidades me convidam, menos a minha. Apesar de ‘Gomorra’ ser o livro mais vendido da história da cidade.

PERGUNTA - Soa irônico, é verdade.

SAVIANO -
Restam poucos focos de resistência ali, poucas forças sadias. Uma delas é Marotta, o filósofo; outra, o cardeal Sepe. E o bispo Raffaele Nogaro, em Caserta, que leva adiante o trabalho do dom Peppino Diana, o padre de Casal di Principe que foi assassinado. É curioso que as instituições religiosas façam o trabalho do Estado. Esse é o drama do sul da Itália.

PERGUNTA - A crise econômica vai agravar a situação?

SAVIANO -
Com certeza. E isso vai permitir ao dinheiro do crime entrar em todo lugar. [Devemos estar por volta do quilômetro 80. Faltam 150 para Nápoles. Não há muito tráfego na estrada e o automóvel voa, como os dos videogames. Os que andam pela esquerda nos acompanham em alta velocidade. ‘Vamos levar pouco mais de uma hora’, informa Saviano. ‘Se os ‘carabinieri’ nos pararem, vamos sorrir.’ É a primeira piada da viagem.] [Parece estar de humor melhor do que estava alguns meses atrás, quando disse que deixaria o país. Mas, à medida que nos aproximamos de Nápoles, vai ficando mais tenso]

PERGUNTA - Na realidade, o sr. vive uma espécie de vida virtual. Como um super-herói ao avesso.

SAVIANO -
Uma vida virtual e blindada. As pessoas me visitam como se eu fosse um doente, me trazem água e açúcar, como dizemos na Itália. O que me dá satisfação são coisas virtuais, como o Facebook -recebo milhares de mensagens de jovens. Isso é precioso. Neste país ainda há pessoas que têm vontade de se expressar.

PERGUNTA - O sr. sente mais esse apoio que o da classe intelectual?

SAVIANO -
O papel do escritor mudou de repente, e alguns se sentiram assediados. Muitas pessoas exigem que os escritores se pronunciem. Antes achavam que os livros não podiam mudar as coisas; hoje já não se pode afirmar isso. Talvez se possa dizer que alguns escrevem palavras que não mudam as coisas e que outros escrevem palavras que permitem que as pessoas tenham instrumentos para mudar as coisas. O poder enorme que tem o leitor que escolhe ler um livro... Talvez ele não se dê conta disso. Eu, sim. Os leitores, e não o livro, são a chave de minha história. Se ninguém tivesse lido meu livro, a Camorra teria se importado muito menos com ele.

PERGUNTA - A jornalista do ‘Il Mattino’ Rosaria Capacchione, autora de ‘L’Oro della Camorra’ [O Ouro da Camorra], também vive sob escolta.

SAVIANO -
Sim, é um caso parecido com o meu. A diferença é que ela ainda vive e trabalha em Nápoles. Consideram-me um palhaço porque escrevo fora da cidade. Já ela é respeitada.

PERGUNTA - [O jogador de futebol] Cannavaro já disse que essas coisas da máfia é melhor não espalhar...

SAVIANO -
A máfia faz todo mundo sentir-se culpado. Alguns se sentem culpados porque sabem pouco, outros, porque pensam muito. Cannavaro se equivoca em uma coisa.. Não é um problema local, é global: eles investem em todo lugar.

PERGUNTA - Muitos napolitanos pensam como ele.

SAVIANO -
Sim, um dia um advogado gritou para mim: ‘Sou eu quem paga sua escolta!’. E os vizinhos de um apartamento que tive se organizaram e pagaram vários meses de meu aluguel adiantados, para não me terem ali.

[Nápoles aparece no horizonte, grande e belíssima. ‘Você vê Nápoles e depois morre’, reza o ditado. Uma frase que não parece oportuno citar quando o carro estaciona no quartel da polícia. Por sorte a pizzaria fica perto dali, na rua de Toledo.]

[Os livros são a grande paixão de Saviano, desde pequeno. Seu rosto só se ilumina quando fala de literatura e quando chega a pizza fumegante, verdadeiramente napolitana: mussarela de búfala, tomates cereja, crocante e macia.]

[Saviano a corta em triângulos e sopra por cima, fazendo círculos, como um menino. Então conta que tirou de ‘Soldados de Salamina’, de Javier Cercas, a inspiração para escrever seu ‘relato real’. E que gostaria de encontrar Mario Vargas Llosa.] É um escritor fabuloso, e, como Cervantes, conhece a alma napolitana. Eu o escolheria como padrinho de meu retorno público.

Seria maravilhoso se Marotta organizasse sua vinda aqui no Instituto, porque foi essa grande tradição laica e civil de Nápoles que me ajudou a escrever o livro. Os mestres dos revolucionários franceses eram napolitanos. Aqui nasceram as ideias de liberdade na Europa.

E não foi por acaso que Giordano Bruno morreu na fogueira, e sim porque tentou retornar a Nápoles. Tinha a hospitalidade do mundo inteiro, mas preferiu voltar. Foi detido em Veneza e o queimaram.

Alguns me dizem: ‘Fale da grande cultura, e não da vida ruim’. Caravaggio é a beleza, e essa beleza me dá forças para relatar o mal. Se não existisse essa beleza, não haveria esperança de sair. Mas, se usamos a beleza para encobrir o mal, ela se converte em disfarce.

Estive com Salman Rushdie em Nova York. Cheguei com a escolta, ele se aproximou com Ian McEwan, cada um me pegou por um braço e eles me levaram ao carro. Eu mal conseguia acreditar.

Salman me disse o que eu sinto. Que muitas pessoas pensam que, para um escritor, viver ameaçado é algo glamouroso. Que ninguém vai me entender, exceto algum político (ele diz que apenas Margaret Thatcher o entendia). Que ninguém vai acreditar que o que você mais deseja é tomar um café num bar. Que a única forma de reconquistar sua liberdade é decidir fazê-lo. Que o importante é manter sua cabeça livre e saber quando você quer voltar a ser livre. Que eu devo procurar um bom exílio...

Mas isso é algo que preciso pensar bem, porque começar do zero é difícil.

[Estamos de volta a Roma. Saviano escapuliu na metade da tarde de sexta-feira para passar o fim de semana com sua ‘mamma’ (versão oficial) e hoje ficamos na sede de sua editora, a Mondadori. Finalmente, a boa notícia: Saviano está escrevendo outra vez. Tem dois projetos em andamento. Um é um relato verídico sobre o crime organizado internacional. O outro falará dele próprio, do homem solitário. Será quase uma vendeta.]

[‘Tenho que canalizar de alguma maneira o rancor que sinto pelos amigos que me abandonaram quando escrevi ‘Gomorra’. Sinto ódio por eles. Entendo que a vendeta não é uma arte nobre, mas me deixaram no chão quando eu mais precisava deles. E a amizade é o contrário disso, não?’]

PERGUNTA - Com sua família as coisas vão melhor?

SAVIANO -
Quando meus pais se separaram, meu irmão e eu ficamos com nossa mãe, que é química e vivia viajando a congressos. Estudamos num colégio de Caserta. Víamos meu pai, que é o médico da cidade, nos finais de semana.

Arruinei a vida de todos que me eram próximos. Meu irmão foi trabalhar no norte. E não tenho relações com meu pai.

PERGUNTA - Dizem que tudo vem da infância. O que o sr. se recorda da Camorra daquela época?

SAVIANO -
Meu pai me levava para visitar doentes nos povoados rurais de Caserta. Muitas vezes víamos cenas apocalípticas. Eu me lembro das búfalas mortas boiando no rio Volturno. Quando ficavam velhas, jogavam-nas na água, para economizar balas..

Lembro que pescávamos percas marinhas no rio, porque, de tanto a Camorra roubar a areia do rio para fazer cimento, em vez de o rio desembocar no mar, a água salgada penetrava em seu leito.

Meu pai sempre teve medo da Camorra, mas nunca se rebelou. Via os carros luxuosos deles e sentia raiva. Mas não dizia nada, nunca.

Sempre senti essa asfixia. Tudo ia mal, mas ninguém podia fazer nada. Sempre foi assim. ‘Se você é ‘furbo’ (malandro), pode aproveitar’, diziam. Se você pensa que pode mudar alguma coisa, é um louco.

A Camorra sabe que só tem problemas quando mata demais. Ela ajuda as famílias com filhos deficientes.

PERGUNTA - Quer dizer que não é apenas um Estado, mas um Estado de Bem-Estar Social.

SAVIANO -
Mas o bem-estar social da Camorra não é um direito, é um privilégio. Eles podem tirá-lo de você.

PERGUNTA - Quando decidiu ser escritor?

SAVIANO -
Aos 14 ou 15 anos. Eu sempre lia; adorava os clássicos. Nascer na terra da Camorra não supõe apenas viver entre morte e sangue -você também vive rodeado das melhores ruínas da Antiguidade. Aníbal e Espártaco eram os personagens de minha infância. Meu avô e meu tio sempre me contavam histórias de Espártaco.

A cultura é o que realmente salva nossa vida; minha terra me deu isso de presente. A ‘Anábasis’ de Xenofonte se parece comigo.

Para escrevê-la, ele se tornou mercenário. Xenofonte era tatuado, e eu também. Ele se fez tatuar com a figura de um javali. Consideravam-no um reacionário. Mas no livro, dizia: ‘Não confia em quem escreve sobre coisas não vividas’.

PERGUNTA - Mas, para o sr., esse livro apenas estragou sua vida.

SAVIANO -
Agora vivo encerrado em ambientes fechados; ando de um cômodo a outro, às vezes dou socos nas paredes. É uma meia morte, ou uma meia vida.

PERGUNTA - Ela acabará um dia...

SAVIANO -
Quem sabe minha libertação chegue e eu possa passear novamente na praça do Plebiscito quando eu for velho, ou usando uma peruca loira.

Mas não acredito. Nápoles não só não esquece como sente rancor. ‘Gomorra’ arrancou a tampa que fechava tantos silêncios. Não me perdoarão nunca. Dizem: ‘Você está ganhando dinheiro com a ‘monnezza’ (o lixo), hein?’, ou ‘pare de escrever porcaria, ‘buffone’.

Os guarda-costas se indignam mais do que eu, e tenho que dizer a eles que têm que me defender dos ataques físicos, não dos espirituais.

PERGUNTA - Orhan Pamuk deixou a Turquia.

SAVIANO -
A Europa e o México são hoje os lugares onde os escritores correm mais risco. Mataram com um tiro na cabeça o autor [Georgi Stoev] de ‘BG Godfather’ [Chefão Búlgaro]. Também mataram Politkovskaia e a jornalista que retomou seu trabalho... Dá medo neles o autor que consegue fazer sua mensagem extrapolar seu território.

PERGUNTA - O sr. pensa muito em sua própria morte?

SAVIANO -
Bastante. Me dizem que o TNT é o pior, mas eu sinto mais medo de balas.. Sei que me farão pagar -está escrito.

Convivo tanto com isso que já não me assusta mais. Quando chegarem, porque chegarão, será dentro de algum tempo. A tensão me defenderá por alguns anos. Enquanto isso, eles, seus 200 mil seguidores e tantos políticos que tentam minimizar o que acontece, dizendo que é exagero, continuarão com a difamação. Dirão que copiei, que sou um palhaço.

Diziam isso a Falcone. E ele disse uma coisa muito importante a sua irmã. Disse que não se defendia das calúnias porque elas se defendem sozinhas, e que a máfia lhe faria um favor matando-o, porque assim ficaria claro que não era arrivista e que dizia a verdade..

PERGUNTA - Não podemos terminar assim. Suas armas são a palavra e a verdade, e são mais poderosas que as balas.

SAVIANO -
Contar a verdade me ajudou a afastar as sombras que eu carregava por dentro e que se projetavam sobre mim. Eles venceram em parte, por me fazerem viver assim.

Mas, por outro lado, perderam. Hoje no Facebook há milhares de jovens discutindo a Camorra. Destruíram minha vida, mas, quanto a mim, o que fiz já não é meu. É das crianças.

A íntegra deste texto saiu no ‘El País’. Tradução de Clara Allain"



Isto é a Camorra

"Desde 1979, a Camorra comete em média um assassinato a cada 2,5 dias. Tem faturamento de bilhões de euros anuais, controla parte do tráfico de cocaína na Europa, domina o negócio da extorsão, da agiotagem, da coleta de lixo e do transporte de dejetos tóxicos.

Ela controla crianças de 11 anos, que atuam como sentinelas, abocanha grandes contratos públicos para os quais são feitas licitações na região da Campanha -onde fica Nápoles.

A Camorra também lava dinheiro no setor da construção civil da Espanha, compra políticos, faz prefeitos, administra direta ou indiretamente 40% do comércio de Nápoles, fabrica roupas no mercado negro para grandes empresas, dirige a importação e distribuição de mercadorias falsificadas vindas da China e domina o porto da cidade."



Isto é ‘Gomorra’

"O livro ‘Gomorra’, publicado na Itália pela editora Mondadori, vendeu mais de 2 milhões de exemplares em seu país e foi traduzido para mais de 30 línguas. Lançado no Brasil no final do ano passado pela Bertrand Brasil (trad. Elaine Niccolai, 350 págs., R$ 39), já vendeu no país 37 mil exemplares.

A adaptação cinematográfica, dirigida por Matteo Garrone, recebeu o Grande Prêmio em Cannes em 2008 e foi vista por 65 mil pessoas nos cinemas brasileiros. Está disponível nas locadoras (Paris Filmes)."

Enquanto a morte não chega

Miguel Mora

Folha de S. Paulo, 6 de abril de 2009
 

"Não sei se estou meio morto ou meio vivo. O que sei é que a ameaça dos Casaleses [clã mafioso] me converteu em uma pessoa pior. Mais desconfiada, mais egoísta. Sinto ódio dos amigos que me abandonaram quando o livro saiu, entre uma partida de Playstation e uma da Liga Fantástica. Apenas saio de casa. Não posso usar cartão de crédito. Vivo sob escolta 24 horas por dia. Deixei de ser um homem -virei uma equipe. Os rapazes são ótimos, são napolitanos como eu. Praticamos esportes juntos, lutamos boxe no ginásio... Mas sinto falta de Nápoles, aqueles eternos atrasos de trem na estação... O tempo se deformou, os minutos são estranhos, cada movimento banal requer um dia inteiro. E não posso mais fazer as coisas mais simples: passear, tomar uma bebida num bar, comprar uma geladeira. Ontem fomos ao supermercado, e foi patético. Os ‘carabinieri’ [policiais militares] em torno do carrinho, todos opinando sobre a pasta que eu devia comprar. As pessoas se assustaram; nos abriram um espaço no caixa para que fôssemos embora logo. Quando saímos, eu disse aos rapazes: ‘Não vamos voltar’.’

Assim é a vida de Roberto Saviano. Uma vida que não é vida, uma vida-morte, uma espécie de morte em vida.

O sucesso de ‘Gomorra’ [ed. Bertrand Brasil], um dos maiores fenômenos da história italiana, converteu-se numa maldição para seu autor.

Reconhecimento, prêmios e elogios, fama, dinheiro e viagens, nada disso compensa o outro lado da moeda: Saviano foi difamado, cuspido e insultado pelos jovens de sua própria terra, abandonado por seus amigos, condenado à morte.

E hoje vive agachado, rodeado de armas e de policiais, em alta velocidade e à meia-voz.

O Sistema

Tem apenas 29 anos, mas percebe-se que já não é mais aquele rapaz que gostava de contar piadas e que ia conquistar o mundo quando formou-se em filosofia pela Universidade Federico 2º, em Nápoles.

Foi naquela época que Saviano começou a escrever seu primeiro relato real, intitulado ‘La Terra Padre’ [A Terra Pai]. Naturalmente, o tema era a Camorra.

Conforme descrita por Saviano, a máfia napolitana, ou, melhor, da região da Campanha, deixou de ser o que era aos olhos de muitas pessoas -um grupo de bandidos dirigidos por tipos mais ou menos honrados que traficam e assassinam, mas que, no fundo, protegem uma população abandonada à própria sorte (embora esta última parte continue sendo verdade).

Ela passou a ser O Sistema, uma poderosa holding criminal que, de acordo com o último censo feito pelo chefe dos ‘carabinieri’ de Nápoles, o general Gaetano Maruccia [leia entrevista na pág. 6], responsável pela segurança de Saviano, ‘tem pelo menos 80 clãs e mais de 3.000 filiados armados, aos quais se soma uma extensa rede de colaboradores’.

Quando Saviano começou a escrever, era um jovem feliz, embora trabalhasse sem parar.

‘Eu tinha quatro ou cinco trabalhos: numa pizzaria, dando aulas de reforço para crianças à tarde, como pedreiro ocasional no campo de Caserta, bolsista de doutorado em história contemporânea e colaborador de periódicos e sites.’

Levou apenas alguns meses para juntar os 11 relatos verídicos que formam ‘Gomorra’.

Pouco depois, o manuscrito se converteu em livro, graças ao faro dos editores da Mondadori. ‘Publicaram meu primeiro relato na revista ‘Nuovi Argumenti’ (em abril de 2005), e depois fecharam comigo um contrato de promessa jovem. Me deram 5.000 de adiantamento por 5.000 cópias’, recorda Saviano.

Logo depois esse contrato deu lugar a outro, com valores estelares. ‘Em maio de 2006, quando o livro finalmente saiu nas livrarias, eu era o cara mais feliz do mundo. Vivi os cinco melhores meses de minha vida. Eu era um homem livre. Ganhei o Prêmio Viareggio, comecei a escrever no ‘La Repubblica’ e no ‘Espresso’, a falar na televisão... E, de repente, tudo parou. Tudo o que aconteceu desde então eu não vivi.’

Chegaram as primeiras ameaças dos Casaleses, o clã do povoado onde Saviano cresceu, Casal di Principe. E eram inequívocas. Ele teria que morrer. Não apenas sabia demais e tinha contado o que sabia, dando nomes e sobrenomes, relacionando cada informação com sua fonte, como também, e sobretudo, o livro havia chegado a pessoas demais.

A Camorra estava na boca de todos. Já não era o tradicional mal menor napolitano (fisiológico, à margem da lei). Era um câncer internacional.

Os juízes antimáfia levaram a advertência a sério. Era preciso protegê-lo, e rápido. No dia 13 de outubro de 2006, o ministro do Interior, Giuliano Amato, decidiu que Saviano deveria viver escoltado.

‘Lembro-me do dia em que os policiais militares vieram me buscar em casa para me levar ao quartel. Os vizinhos brincavam: ‘Robbè, finalmente estão prendendo você!’. Amato foi de uma sensibilidade extraordinária. Disse que o Estado tinha que me proteger, porque por mim defendia a liberdade de expressão, um princípio constitucional. Isso me converteu em símbolo da liberdade de expressão. Sempre o agradecerei por isso.’

Dois anos e quatro meses se passaram. Seus velhos amigos se afastaram dele. Sua antiga namorada o deixou. Sua família se dispersou ainda mais do que já estava dispersa (seus pais se separaram em pouco tempo).

E Saviano se culpa por tudo isso. Diz que lamenta por ‘ter destruído meu mundo por um livro e ter feito mal a todos os que me queriam bem’.

Sua vida está ‘suspensa, cancelada, detida’. É um destino quase irreversível.

Por questões de segurança, foram necessárias semanas para marcar o encontro para esta entrevista. A primeira tentativa foi adiada porque os níveis de alerta dispararam.

Um primo de Sandokan [líder mafioso] chamado Carmine Schiavone e colaborador com a Justiça (um ‘pentito’, ou arrependido), revelou que a Camorra tinha plano e data marcada. Iam matar Saviano antes do fim do ano, colocando uma bomba no caminho que ele percorreria na rodovia A1, que liga Roma a Nápoles.

Mas o nível de alerta diminuiu. Schiavone -que, mais do que um arrependido, parece ser o porta-voz da Camorra- declarou que seus ex-comparsas tinham decidido esperar que os holofotes fossem um pouco apagados antes de matá-lo. Com mais calma.

Finalmente pudemos marcar o encontro.

‘Vão acabar comigo’

Com a ajuda de sua amabilíssima assistente, Manuela, programamos ir juntos a Nápoles, fazer uma refeição com Saviano e conhecer seu amigo, o general Maruccia, chefe do Comando Provincial dos Carabinieri de Nápoles.

É 16 de janeiro, a manhã é bela e gelada, e os dois carros blindados chegam pontuais e muito juntos, deslizando com elegância italiana.

Saviano está sentado no primeiro carro, no banco de trás, à direita. As sirenes deixam de tocar, e os carros param. Cinco policiais descem e vasculham a rua com seus óculos escuros e seus ‘walkie-talkies’. Saviano continua sentado dentro do Lancia cinza.

Nos cumprimentamos e o fotógrafo começa a fazer imagens. Os guardas permanecem impassíveis. Estão acostumados. A esta altura, já foram fotografados 2.000 vezes e sabem que a Camorra conhece seus rostos milimetricamente. Mesmo assim, suas expressões não traem medo algum.

Saviano faz um apanhado do armamento: os Casaleses têm cem quilos de TNT e um arsenal de metralhadoras e pistolas. ‘Sei que vão acabar comigo. Cedo ou tarde, vão fazê-lo.’"


 

O homem blindado

Leia a seguir entrevista com Roberto Saviano.

PERGUNTA - Quer dizer que é assim sua vida atual?

ROBERTO SAVIANO -
É assim. Eles vão aos lugares antes de mim. Chegam primeiro, controlam tudo, e depois eu vou. Para qualquer coisa. Se é preciso comprar uma geladeira, por exemplo, eles vão na frente, depois eu vou, a olho, escolho o modelo, e então vamos a outra loja diferente para comprá-la. Nunca voltamos ao mesmo lugar.

PERGUNTA - O sr. sempre teve cinco guardas?

SAVIANO -
Comecei com dois, depois passaram a ser cinco.

PERGUNTA - O sr. muda muito de casa?

SAVIANO -
Sempre que observamos algum detalhe diferente. Por exemplo, se há uma obra em andamento num edifício próximo e sabemos que há pessoas de Nápoles trabalhando ali que já foram julgadas, eles me mudam de casa. Basta algo assim.

PERGUNTA - Eles o escoltam também dentro de casa?

SAVIANO -
Não, normalmente não entram em casa. Esperam atrás da porta. Vinte e quatro horas por dia.

PERGUNTA - Parecem tranquilos.

SAVIANO
- Têm muitos anos de experiência no combate à máfia. Já protegeram personalidades, juízes e ‘supertestemunhas’. Maruccia os escolheu.

PERGUNTA - Com tanto contato, vocês já devem ter virado amigos.

SAVIANO -
Claro, são magníficos. E isso me obriga a seguir adiante, a não desistir. Devo isso a eles, que me defendem.

PERGUNTA - O sr. encontra amigos em casa?

SAVIANO -
Poucas vezes. Muitos de meus amigos se afastaram desde que o livro saiu. Foi muito doloroso entender isso. É natural, porque você desaparece, vira invisível e se torna outra pessoa. Você fica desconfiado, vive nervoso, com a cabeça em outro lugar, e nada nem ninguém parece estar à altura trágica de sua situação...

PERGUNTA - A normalidade se torna absurda.

SAVIANO -
Sim, as propostas das pessoas normais, falar de coisas bobas, sair para tomar uma cerveja, bater papos superficiais, no início eu não suportava. Eu estava mergulhado num turbilhão no qual existia apenas meu trabalho, minha situação, e procurava respostas nos livros. Fiz uma espécie de descida aos infernos literários para entender quem, antes de mim, em situações mais graves, conseguiu sobreviver.

PERGUNTA - E quais autores o ajudaram?

SAVIANO -
Os perseguidos pelos soviéticos: Boris Pasternak [1890-1960], Varlam Shalamov [1907-82].... e, mais recentemente, Anna Politkovskaia [1958-2006], que acabou de forma trágica, mas sempre enfrentou as difamações. Não vou esquecê-la. Tampouco me esqueço das cartas e dos diários do juiz Giovanni Falcone [1939-92], o que ele escreveu e publicou, porque resistiu a ataques cotidianos, parecidos com os que eu sofro.

PERGUNTA - E, tantas vezes, com a cumplicidade do governo.

SAVIANO -
Sim. Estou convencido de que, na Itália, quando se luta contra determinados poderes, o destino das pessoas está selado. Não necessariamente de forma trágica, embora muitas vezes seja assim.

PERGUNTA - Deixando o sr. fora do circuito?

SAVIANO -
Eles o caluniam, dizem que você está se exibindo, que está procurando publicidade. É isso que é incrível, porque se cria um círculo vicioso que impede que você tenha a palavra. E o que as máfias temem é justamente isso: a atenção.

PERGUNTA - Quando o sr. escreveu o livro, imaginou que aconteceria algo assim?

SAVIANO -
Eu era um sujeito jovem que lia, discutia e escrevia.. De repente me vi no meio desta guerra. Pensava que teria problemas, mas não tão graves. Agora não posso pôr os pés em Nápoles. Esta viagem é a primeira que faço em um mês. Todas as cidades me convidam, menos a minha. Apesar de ‘Gomorra’ ser o livro mais vendido da história da cidade.

PERGUNTA - Soa irônico, é verdade.

SAVIANO -
Restam poucos focos de resistência ali, poucas forças sadias. Uma delas é Marotta, o filósofo; outra, o cardeal Sepe. E o bispo Raffaele Nogaro, em Caserta, que leva adiante o trabalho do dom Peppino Diana, o padre de Casal di Principe que foi assassinado. É curioso que as instituições religiosas façam o trabalho do Estado. Esse é o drama do sul da Itália.

PERGUNTA - A crise econômica vai agravar a situação?

SAVIANO -
Com certeza. E isso vai permitir ao dinheiro do crime entrar em todo lugar. [Devemos estar por volta do quilômetro 80. Faltam 150 para Nápoles. Não há muito tráfego na estrada e o automóvel voa, como os dos videogames. Os que andam pela esquerda nos acompanham em alta velocidade. ‘Vamos levar pouco mais de uma hora’, informa Saviano. ‘Se os ‘carabinieri’ nos pararem, vamos sorrir.’ É a primeira piada da viagem.] [Parece estar de humor melhor do que estava alguns meses atrás, quando disse que deixaria o país. Mas, à medida que nos aproximamos de Nápoles, vai ficando mais tenso]

PERGUNTA - Na realidade, o sr. vive uma espécie de vida virtual. Como um super-herói ao avesso.

SAVIANO -
Uma vida virtual e blindada. As pessoas me visitam como se eu fosse um doente, me trazem água e açúcar, como dizemos na Itália. O que me dá satisfação são coisas virtuais, como o Facebook -recebo milhares de mensagens de jovens. Isso é precioso. Neste país ainda há pessoas que têm vontade de se expressar.

PERGUNTA - O sr. sente mais esse apoio que o da classe intelectual?

SAVIANO -
O papel do escritor mudou de repente, e alguns se sentiram assediados. Muitas pessoas exigem que os escritores se pronunciem. Antes achavam que os livros não podiam mudar as coisas; hoje já não se pode afirmar isso. Talvez se possa dizer que alguns escrevem palavras que não mudam as coisas e que outros escrevem palavras que permitem que as pessoas tenham instrumentos para mudar as coisas. O poder enorme que tem o leitor que escolhe ler um livro... Talvez ele não se dê conta disso. Eu, sim. Os leitores, e não o livro, são a chave de minha história. Se ninguém tivesse lido meu livro, a Camorra teria se importado muito menos com ele.

PERGUNTA - A jornalista do ‘Il Mattino’ Rosaria Capacchione, autora de ‘L’Oro della Camorra’ [O Ouro da Camorra], também vive sob escolta.

SAVIANO -
Sim, é um caso parecido com o meu. A diferença é que ela ainda vive e trabalha em Nápoles. Consideram-me um palhaço porque escrevo fora da cidade. Já ela é respeitada.

PERGUNTA - [O jogador de futebol] Cannavaro já disse que essas coisas da máfia é melhor não espalhar...

SAVIANO -
A máfia faz todo mundo sentir-se culpado. Alguns se sentem culpados porque sabem pouco, outros, porque pensam muito. Cannavaro se equivoca em uma coisa.. Não é um problema local, é global: eles investem em todo lugar.

PERGUNTA - Muitos napolitanos pensam como ele.

SAVIANO - Sim, um dia um advogado gritou para mim: ‘Sou eu quem paga sua escolta!’. E os vizinhos de um apartamento que tive se organizaram e pagaram vários meses de meu aluguel adiantados, para não me terem ali.

[Nápoles aparece no horizonte, grande e belíssima. ‘Você vê Nápoles e depois morre’, reza o ditado. Uma frase que não parece oportuno citar quando o carro estaciona no quartel da polícia. Por sorte a pizzaria fica perto dali, na rua de Toledo.]

[Os livros são a grande paixão de Saviano, desde pequeno. Seu rosto só se ilumina quando fala de literatura e quando chega a pizza fumegante, verdadeiramente napolitana: mussarela de búfala, tomates cereja, crocante e macia.]

[Saviano a corta em triângulos e sopra por cima, fazendo círculos, como um menino. Então conta que tirou de ‘Soldados de Salamina’, de Javier Cercas, a inspiração para escrever seu ‘relato real’. E que gostaria de encontrar Mario Vargas Llosa.] É um escritor fabuloso, e, como Cervantes, conhece a alma napolitana. Eu o escolheria como padrinho de meu retorno público.

Seria maravilhoso se Marotta organizasse sua vinda aqui no Instituto, porque foi essa grande tradição laica e civil de Nápoles que me ajudou a escrever o livro. Os mestres dos revolucionários franceses eram napolitanos. Aqui nasceram as ideias de liberdade na Europa.

E não foi por acaso que Giordano Bruno morreu na fogueira, e sim porque tentou retornar a Nápoles. Tinha a hospitalidade do mundo inteiro, mas preferiu voltar. Foi detido em Veneza e o queimaram.

Alguns me dizem: ‘Fale da grande cultura, e não da vida ruim’. Caravaggio é a beleza, e essa beleza me dá forças para relatar o mal. Se não existisse essa beleza, não haveria esperança de sair. Mas, se usamos a beleza para encobrir o mal, ela se converte em disfarce.

Estive com Salman Rushdie em Nova York. Cheguei com a escolta, ele se aproximou com Ian McEwan, cada um me pegou por um braço e eles me levaram ao carro. Eu mal conseguia acreditar.

Salman me disse o que eu sinto. Que muitas pessoas pensam que, para um escritor, viver ameaçado é algo glamouroso. Que ninguém vai me entender, exceto algum político (ele diz que apenas Margaret Thatcher o entendia). Que ninguém vai acreditar que o que você mais deseja é tomar um café num bar. Que a única forma de reconquistar sua liberdade é decidir fazê-lo. Que o importante é manter sua cabeça livre e saber quando você quer voltar a ser livre. Que eu devo procurar um bom exílio...

Mas isso é algo que preciso pensar bem, porque começar do zero é difícil.

[Estamos de volta a Roma. Saviano escapuliu na metade da tarde de sexta-feira para passar o fim de semana com sua ‘mamma’ (versão oficial) e hoje ficamos na sede de sua editora, a Mondadori. Finalmente, a boa notícia: Saviano está escrevendo outra vez. Tem dois projetos em andamento. Um é um relato verídico sobre o crime organizado internacional. O outro falará dele próprio, do homem solitário. Será quase uma vendeta.]

[‘Tenho que canalizar de alguma maneira o rancor que sinto pelos amigos que me abandonaram quando escrevi ‘Gomorra’. Sinto ódio por eles. Entendo que a vendeta não é uma arte nobre, mas me deixaram no chão quando eu mais precisava deles. E a amizade é o contrário disso, não?’]

PERGUNTA - Com sua família as coisas vão melhor?

SAVIANO - Quando meus pais se separaram, meu irmão e eu ficamos com nossa mãe, que é química e vivia viajando a congressos. Estudamos num colégio de Caserta. Víamos meu pai, que é o médico da cidade, nos finais de semana.

Arruinei a vida de todos que me eram próximos. Meu irmão foi trabalhar no norte. E não tenho relações com meu pai.

PERGUNTA - Dizem que tudo vem da infância. O que o sr. se recorda da Camorra daquela época?

SAVIANO - Meu pai me levava para visitar doentes nos povoados rurais de Caserta. Muitas vezes víamos cenas apocalípticas. Eu me lembro das búfalas mortas boiando no rio Volturno. Quando ficavam velhas, jogavam-nas na água, para economizar balas..

Lembro que pescávamos percas marinhas no rio, porque, de tanto a Camorra roubar a areia do rio para fazer cimento, em vez de o rio desembocar no mar, a água salgada penetrava em seu leito.

Meu pai sempre teve medo da Camorra, mas nunca se rebelou. Via os carros luxuosos deles e sentia raiva. Mas não dizia nada, nunca.

Sempre senti essa asfixia. Tudo ia mal, mas ninguém podia fazer nada. Sempre foi assim. ‘Se você é ‘furbo’ (malandro), pode aproveitar’, diziam. Se você pensa que pode mudar alguma coisa, é um louco.

A Camorra sabe que só tem problemas quando mata demais. Ela ajuda as famílias com filhos deficientes.

PERGUNTA - Quer dizer que não é apenas um Estado, mas um Estado de Bem-Estar Social.

SAVIANO - Mas o bem-estar social da Camorra não é um direito, é um privilégio. Eles podem tirá-lo de você.

PERGUNTA - Quando decidiu ser escritor?

SAVIANO - Aos 14 ou 15 anos. Eu sempre lia; adorava os clássicos. Nascer na terra da Camorra não supõe apenas viver entre morte e sangue -você também vive rodeado das melhores ruínas da Antiguidade. Aníbal e Espártaco eram os personagens de minha infância. Meu avô e meu tio sempre me contavam histórias de Espártaco.

A cultura é o que realmente salva nossa vida; minha terra me deu isso de presente. A ‘Anábasis’ de Xenofonte se parece comigo.

Para escrevê-la, ele se tornou mercenário. Xenofonte era tatuado, e eu também. Ele se fez tatuar com a figura de um javali. Consideravam-no um reacionário. Mas no livro, dizia: ‘Não confia em quem escreve sobre coisas não vividas’.

PERGUNTA - Mas, para o sr., esse livro apenas estragou sua vida.

SAVIANO - Agora vivo encerrado em ambientes fechados; ando de um cômodo a outro, às vezes dou socos nas paredes. É uma meia morte, ou uma meia vida.

PERGUNTA - Ela acabará um dia...

SAVIANO - Quem sabe minha libertação chegue e eu possa passear novamente na praça do Plebiscito quando eu for velho, ou usando uma peruca loira.

Mas não acredito. Nápoles não só não esquece como sente rancor. ‘Gomorra’ arrancou a tampa que fechava tantos silêncios. Não me perdoarão nunca. Dizem: ‘Você está ganhando dinheiro com a ‘monnezza’ (o lixo), hein?’, ou ‘pare de escrever porcaria, ‘buffone’.

Os guarda-costas se indignam mais do que eu, e tenho que dizer a eles que têm que me defender dos ataques físicos, não dos espirituais.

PERGUNTA - Orhan Pamuk deixou a Turquia.

SAVIANO - A Europa e o México são hoje os lugares onde os escritores correm mais risco. Mataram com um tiro na cabeça o autor [Georgi Stoev] de ‘BG Godfather’ [Chefão Búlgaro]. Também mataram Politkovskaia e a jornalista que retomou seu trabalho... Dá medo neles o autor que consegue fazer sua mensagem extrapolar seu território.

PERGUNTA - O sr. pensa muito em sua própria morte?

SAVIANO - Bastante. Me dizem que o TNT é o pior, mas eu sinto mais medo de balas.. Sei que me farão pagar -está escrito.

Convivo tanto com isso que já não me assusta mais. Quando chegarem, porque chegarão, será dentro de algum tempo. A tensão me defenderá por alguns anos. Enquanto isso, eles, seus 200 mil seguidores e tantos políticos que tentam minimizar o que acontece, dizendo que é exagero, continuarão com a difamação. Dirão que copiei, que sou um palhaço.

Diziam isso a Falcone. E ele disse uma coisa muito importante a sua irmã. Disse que não se defendia das calúnias porque elas se defendem sozinhas, e que a máfia lhe faria um favor matando-o, porque assim ficaria claro que não era arrivista e que dizia a verdade..

PERGUNTA - Não podemos terminar assim. Suas armas são a palavra e a verdade, e são mais poderosas que as balas.

SAVIANO - Contar a verdade me ajudou a afastar as sombras que eu carregava por dentro e que se projetavam sobre mim. Eles venceram em parte, por me fazerem viver assim.

Mas, por outro lado, perderam. Hoje no Facebook há milhares de jovens discutindo a Camorra. Destruíram minha vida, mas, quanto a mim, o que fiz já não é meu. É das crianças.

A íntegra deste texto saiu no ‘El País’. Tradução de Clara Allain"



Isto é a Camorra

"Desde 1979, a Camorra comete em média um assassinato a cada 2,5 dias. Tem faturamento de bilhões de euros anuais, controla parte do tráfico de cocaína na Europa, domina o negócio da extorsão, da agiotagem, da coleta de lixo e do transporte de dejetos tóxicos.

Ela controla crianças de 11 anos, que atuam como sentinelas, abocanha grandes contratos públicos para os quais são feitas licitações na região da Campanha -onde fica Nápoles.

A Camorra também lava dinheiro no setor da construção civil da Espanha, compra políticos, faz prefeitos, administra direta ou indiretamente 40% do comércio de Nápoles, fabrica roupas no mercado negro para grandes empresas, dirige a importação e distribuição de mercadorias falsificadas vindas da China e domina o porto da cidade."



Isto é ‘Gomorra’

"O livro ‘Gomorra’, publicado na Itália pela editora Mondadori, vendeu mais de 2 milhões de exemplares em seu país e foi traduzido para mais de 30 línguas. Lançado no Brasil no final do ano passado pela Bertrand Brasil (trad. Elaine Niccolai, 350 págs., R$ 39), já vendeu no país 37 mil exemplares.

A adaptação cinematográfica, dirigida por Matteo Garrone, recebeu o Grande Prêmio em Cannes em 2008 e foi vista por 65 mil pessoas nos cinemas brasileiros. Está disponível nas locadoras (Paris Filmes)."

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Carta aberta do irmão de Celso Daniel

Hoje, 16 de abril, Celso Daniel, meu irmão, estaria completando 58 anos de vida. Como todos sabem, foi seqüestrado, torturado e assassinado há mais de sete anos quando era prefeito de Santo André e coordenava a elaboração do programa de governo do então candidato à presidência da república Luis Inácio Lula da Silva. Sérgio Gomes da Silva, que o acompanhava no momento do seqüestro, foi denunciado pelo Ministério Público como mandante desse crime. Foi preso por um pequeno período, mas responde em liberdade, após obter habeas corpus do Supremo Tribunal Federal, sob a alegação de que não representa perigo para a sociedade.

Apesar de todas as evidências colhidas pelo MP que mostraram que o crime foi planejado e que há pelo menos um mandante, o Poder Judiciário ainda sequer decidiu se o julgamento deve ir a júri popular porque, segundo informações que obtivemos do MP, a última das testemunhas arroladas pela defesa de « Sombra » (conforme Sérgio é chamado pela imprensa e era conhecido nos meios petistas) ainda não foi ouvida, pois nunca é encontrada. Parece-nos que expedientes como esse e tantos outros são usados para que as tramitações legais se alonguem no tempo, de modo a tornar mais difícil sua solução.

Inúmeros outros assassinatos que ganharam amplo espaço na imprensa já foram resolvidos ou a justiça já se posicionou quanto ao encaminhamento a ser dado. Como explicar que no « caso Isabella », de cinco anos, morta em 2008 ao cair do apartamento onde residia, seu pai e sua madrasta já tenham ido a júri popular e até hoje o processo de Celso segue sem essa decisão após mais de 7 anos ? Como explicar que o promotor Igor Ferreira, 3 anos após ter tirado a vida de sua esposa já tenha sido julgado e condenado e o caso de Celso segue ainda sem resposta da justiça ? Como explicar que no crime de que foi acusado o promotor Thales Ferri Schoedl a decisão final tenha sido tomada em menos de 4 anos e os indiciados pelo crime contra Celso ainda sequer tenham ido a júri popular ? Como explicar que o jornalista Pimenta Neves tenha sido condenado em primeira instância após 6 anos pela morte de sua namorada, a jornalista Sandra Gomide, e o assassinato de Celso ainda se encontra em fase de arguição de testemunhas pelo juiz?

Poderíamos citar outros crimes, mas esses já são exemplares para afirmar : há algo de estranho que impede que o julgamento dos responsáveis por seu seqüestro, tortura e assassinato não seja solucionado. Quais são as razões dessa morosidade ? Quais são as pessoas e instituições que têm interesse no sentido de que nada seja resolvido ?

Não cabe a mim julgar os indiciados, mas cabe a mim denunciar esta morosidade. Além disso tenho o direito de apontar problemas de procedimentos correntes na justiça brasileira. Por exemplo, procedimentos que impedem o juiz de tomar a decisão se o processo relativo ao assassinato de meu irmão, passados mais de 7 anos de sua morte, vai ou não a júri popular enquanto não for ouvida a última testemunha de defesa de Sérgio Gomes da Silva.

Que país é o nosso em que pessoas já condenadas em primeira instância podem ficar soltas até que todos os recursos nas demais instâncias sejam analisados enquanto nós, minha família e eu, tivemos que deixar o país em 2006 em função de intimidações, perseguições e ameaças que sofremos e depois de terem ocorrido oito mortes relacionadas à morte do Celso ? Se é justo que um julgamento tenha que chegar a seu fim para que haja punições, é justo que os procedimentos legais possam se alongar quase que indefinidamente ?

Para aqueles que esperam que eu me cale, apesar da condição de exílio que hoje vivo, outorgado pelo Estado francês, uma vida que tem um lado amargo porque fico distante de meu país e sou impedido de ver amigos e parentes, quero dizer que o presente que tenho a dar ao meu irmão em cada um de seus aniversários é e será a minha luta, mesmo à distãncia, pelo aperfeiçaomento das nossas instituições através de nossas reivindicações de punição aos culpados pela morte de Celso e de mudanças ligadas às causas que lhe deram origem.

Como aceitar que Donizeti Braga, que teria tido seu celular rastreado na região do cativeiro de meu irmão, tenha direito a foro especial no processo de investigação pelo único fato de ser deputado estadual ? Como aceitar que o « Sombra » responda em liberdade por decisão da mais importante instância do Judiciário brasileiro enquanto somos obrigados a viver exilados ? Como aceitar que a lentidão de recursos interpostos possam retardar durante anos e anos a punição de criminosos, agora que o STF decidiu que a prisão de um condenado só pode ocorrer quando julgados todos os recursos ?

Sabemos que contamos com a solidariedade e apoio de muitos que lutam e também desejam que o Brasil seja um país mais democrático e menos injusto. Que esta carta ajude neste sentido e contribua para que o caso seja equacionado o mais rápido possível.

Bruno José Daniel Filho
França, 16 de abril de 2009

terça-feira, 3 de março de 2009

O cordel de Miguelzinho de Princesa

Um PAC com Dilma
Miguelzinho de Princesa

I
Quando vi Dilma Roussef
Sair na televisão
Com o rosto renovado
Após uma operação,
Senti que o poder transforma:
Avestruz vira pavão.

II
De repente ela virou
Namorada do Brasil:
Os políticos, quando a vêem,
Começam a soltar psiu,
Pensando em 2010
E nos bilhões que ela pariu.


III
A mulher, que era emburrada,
Anda agora sorridente,
Acenando para o povo,
Alegre, mostrando o dente,
E os baba-ovos gritando:
É Dilma pra presidente!

IV
Mas eu sei que o olho grande
É na montanha de bilhões
Que Lula botou no PAC
Pensando nas eleições
E mandou Dilma gastar,
Sobretudo nos grotões.

V
Senadores garanhões,
Sedutores de donzelas,
E deputados gulosos,
Caçadores de gazelas,
Enjoaram das modelos,
Só querem casar com ela.

VI
Eu também quero uma lasquinha
Uma filepa de poder
Quero olhar nos olhos dela
E, ternamente, dizer
Que mais bonita que ela
Mulher nenhuma há de ser.

VII
Eu já vi um deputado
Dizendo no Cariri
Que Dilma é linda e charmosa,
Igual não existe aqui,
E é capaz de ser mais bela
Que Angelina Jolie.

VIII
Dilma pisa devagar
Com seu jeito angelical,
Nunca deu grito em ninguém
Nem fez assédio moral
Ou correu atrás der gente
Com um pedaço de pau.

IX
Dilma superpoderosa:
8 bilhões pra gastar
Do jeito que ela quiser,
Da forma que ela mandar,
Sem contar com o milhão
Do cofre do Adhemar

X
Estou com ela e não abro:
Viro abridor de cancela,
Topo matar jararaca,
Apagar fogo na goela,
Para no ano vindouro
Fazer um PAC com ela.